Programação começou nesta sexta e segue no sábado com atividades culturais, exposição e troca de sementes no Centro de Eventos de Teixeira Soares/Texto de Karin Franco com entrevista de Rodrigo Zub e Juarez Oliveira

A 20ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade começou nesta sexta-feira (29) no Centro de Eventos Miguel Belinoski, em Teixeira Soares. A programação prossegue neste sábado (30) com troca de sementes, exposição, palestras e atividades culturais. A entrada é gratuita.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Teixeira Soares, Welerson Cleiton Noble, afirma que o evento quer valorizar o agricultor familiar. “O objetivo da feira é fortalecer, principalmente, a agricultura familiar do nosso município, tendo em vista que temos vários agricultores, guardiões de sementes, e estamos sempre fortalecendo a agricultura e os trabalhadores rurais que existem no nosso município”, disse.
Durante o trabalho de divulgação da feira nas escolas, os estudantes foram desafiados a levar sementes de casa para o evento. “Cada um vá, leve um folderzinho que distribuímos para as crianças, leve para casa, converse com o pai, com a mãe, com a avó e veja se tem alguma semente, alguma muda, algo que seja dessas sementes antigas e traga para a feira”, conta o biólogo Renato Kovalski Ribeiro.
A intenção é que os alunos possam depositar as mudas e sementes em uma mandala, que será compartilhada no fim da feira com participantes e estudantes. “Nós precisamos ter esse processo de renovação, porque várias dessas espécies estão desaparecendo. A conservação da agrobiodiversidade é um dos objetivos da feira e as crianças são um dos pontos. Então, a sexta-feira é voltada meio que para essa visita deles”, conta o biólogo.
Nesta sexta-feira aconteceu uma roda de debate sobre agroecologia com participação de representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). “Nós tivemos a participação do pessoal do MDA do estado do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina. E, além de um representante do MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário] de Brasília, que veio para a feira”, conta o biólogo.
A programação do sábado começa às 8h30, com a recepção das caravanas e o Café da Partilha. Às 9h30 inicia a abertura oficial do evento, seguido de uma benção inter-religiosa das sementes, às 11 h. A abertura oficial ainda conta com o lançamento do projeto Terra Mesa, com os três estados do Sul e a presença de representantes do MDA. “A ideia é que eles conheçam, saibam como que está, como que funciona essa conservação da agrodiversidade nossa aqui também e entendam um pouco, também ajudem a gente porque temos várias coisas nisso”, explica o biólogo.


Às 13h30, acontece a terceira roda de conversa que discutirá a presença da mulher na agroecologia. Das 26 famílias que são filiadas ao sindicato, 25 possuem mulheres à frente do trabalho com as sementes. “Nós temos um trabalho muito forte com essa conservação vinda das mulheres. Essa é uma das coisas que estamos programando para a feira, jogando meio por cima”, conta.
Às 15 h do sábado acontece a Partilha das Sementes, um evento em que os participantes tem a chance de trocar sementes e mudas depositadas em uma mandala. “Nós liberamos para você pegar o que quiser lá disso e levar para casa. A ideia é que as crianças vão lá no sábado, peguem isso daqui e levam para casa para plantar a sementinha, plantar a muda. Nós estamos fazendo essa provocação para ter novos guardiões na região”, explica o biólogo.
Um dos propósitos da feira é preservar sementes que não tiveram nenhuma modificação genética. Para isso, o momento da Partilha das Sementes é uma das principais atividades da programação.
Segundo o biólogo, a feira é importante para essa preservação porque, atualmente, é um dos únicos lugares onde é possível fazer esse tipo de troca, que antes era comum nas comunidades. “O que acontece é que quando chega a Revolução Verde, todo esse processo que teve, reduziu muito isso. Hoje você tem agricultores, mas o pessoal trabalha com semente híbrida, semente transgênica, essas sementes já comerciais. E hoje, para você conseguir fazer a troca das sementes, geralmente tem que ser em ambiente de feira, ou por programas, do PEA Sementes. Então, a feira é um local de troca, principalmente. As pessoas vêm e fazem esse fluxo”, explica Renato.
A expectativa é que a feira conte com a participação de 700 pessoas de outros estados, por meio de caravanas de estados como Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraíba. Há ainda a previsão de participantes do Paraguai e Argentina.
Ao todo, o evento deve reunir cerca de 3 mil pessoas. A parte de exposição contará com aproximadamente 160 expositores.
A assentada Neuri da Trindade Pyzibilynski é uma das agricultoras que participa da feira. Ela conta que aprendeu a trabalhar com agroecologia e com a preservação das sementes desde a infância. “A gente começou desde criança nessa lida. O pai ensinou a gente a trabalhar, cuidar da terra, cuidar da semente, que precisa a gente cuidar da nossa terra mãe, da natureza. Então, aprendi já desde criança. Quando no tempo da escola, ia para a roça ajudar os pais”, conta.
Neuri tem trabalhado com o sindicato por meio do projeto Lume. “Esse ano a gente iniciou um projeto chamado Lume que é olhar o passado. Então, a gente reuniu as comunidades dos agricultores, de Teixeira. Para a gente dar uma olhada no passado e pensar o futuro de Teixeira Soares”, comenta.
Em sua horta, Neuri cultiva diversos vegetais e legumes com sementes crioulas e tem fornecido algumas sementes para diversas pessoas. “Até já passei para outras famílias e a pessoa que pegou disse que gostou muito. É uma semente de vagem que você pode comer ela e é excelente. Ela é uma vagem trepadeira e produz muito bem. Essa foi pego na feira da semente crioula”, disse.
A feira se torna um lugar seguro para a troca de sementes crioulas porque são realizados testes para comprovar que as sementes não tiveram modificações. “Nós temos um controle com a questão da transgênia dentro, para ter certeza que essas sementes não são contaminadas ainda. Estão puras ali”, conta o biólogo.
As sementes transgênicas tem mudanças na sua genética que podem transformar a planta. “Transgênico é uma modificação genética que aconteceu na semente. Ela sofreu um processo dentro de um laboratório. Transgênico quer dizer que foi transferido um gene de um ser vivo pra outro. Por exemplo, o milho, temos a bactéria Bacillus thuringiensis, que é uma bactéria que foi há muito tempo usada pra controle do lagarto. Eles descobriram um gene dentro dessa bactéria que mata a lagarta do cartucho. É tirado esse gene e transferido, por isso que é transgênico. Ele é transferido dessa bactéria para o milho. E isso causa algumas modificações na planta”, explica Renato.
A contaminação com sementes modificadas torna inviável o cultivo por meio ada agroecologia. “Para agroecologia se torna inviável, porque ela é meio que tóxica para o solo. Não é tóxica para o humano, porque a toxina BT, no caso, ela não faz efeito no pH do nosso estômago, só faz no da lagarta. Mas, para nós, não é interessante. Isso sem contar que muda várias questões de produção. É uma questão mais técnica, mas diminui algumas proteínas, algumas enzimas dentro do milho”, comenta o biólogo.
A contaminação também se torna um problema financeiro para o agricultor. “Se acontece de contaminar uma semente dessas, é uma produção inteira que o guardião perde. Às vezes tem casos, já tivemos de semente de cem, cento e poucos anos que está circulando na família e acaba se perdendo por essa contaminação. Só para você ter uma ideia, a AS-PTA [Associação Agricultura Familiar e Agroecologia] tinha um banco de sementes com 140 variedades de sementes há dois, três anos. Hoje, estamos trabalhando com 40”, afirma Renato.
Há diversas formas de contaminação das plantas. Uma delas é pelo vento. “A questão do transgênico, o milho, por exemplo, a contaminação dele é feita pelo vento. Tem uma distância correta para plantar, que é geralmente 400 metros de distância ou 30 dias de diferença para você não ter esse problema de contaminação. A gente faz toda essa orientação lá”, conta o biólogo.
Por isso, as sementes de milho ou de pipoca devem obrigatoriamente passar pelo teste de transgenia. Durante a feira, será disponibilizado teste gratuito para até um quilo de sementes.
O biólogo explica como funciona esse teste. “Para nós descobrirmos, ter ainda a semente pura, livre desses transgênicos, nós fazemos o teste chamado imunocromatografia, que é o mesmo teste de gravidez, o teste da Covid, que é uma fitinha que tem um anticorpo lá que reconhece. Então, na feira estamos fazendo pela AS-PTA, inclusive, é quem faz”, disse.
Haverá ainda uma parceria com o Instituto Federal do Paraná (IFPR) de Irati. “Eles vão estar com uma banquinha recebendo essas sementes e fazendo o teste gratuitamente dentro da feira. Toda semente de milho que passa lá dentro da feira tem que passar pelo teste de transgenia, senão não entra”, disse Renato.
Cultivo na agroecologia
A preservação das sementes é feita por meio dos guardiões, que são agricultores que praticam a agroecologia e cultivam plantas com sementes não modificadas. Em média, o cultivo pode chegar até 800 variedades de plantas.
O biólogo conta que uma das preocupações é com o cultivo de sementes crioulas do milho. “Reduziu muito as áreas de plantio dele na agricultura familiar. Hoje, para você produzir um milho crioulo, no caso, ele tem aquela taxa de produção dele um pouco mais baixa do que a taxa do milho convencional que o pessoal tem ainda, com agrotóxico. No entanto, o custo de produção dele é mais baixo. Só que exige um pouco mais de mão de obra, principalmente para isso. O pessoal trabalha com carpideira. Hoje tem os tratoristas, tem máquinas que estão auxiliando nisso. Por isso que eu comentei que é de extrema importância termos a ciência apoiando porque ainda existe muito trabalho manual nessa conservação das sementes”, comenta.
O cuidado no plantio também depende de vários fatores como clima e tempo de plantio. “Já cansei de ver agricultores perdendo sementes de feijão por plantar muito cedo. Agora com esse clima louco, está fácil de perder. Batatinha é outra que o pessoal perdeu muito por questão de plantio. Nós tivemos um ano com um ataque da mosca branca, por exemplo, em várias culturas. Eu achei até um absurdo que eu ouvi falar que até no fumo a mosca branca estava atacando, de tanto que foi complicado”, disse.
O biólogo comenta que esses problemas acontecem pelo uso excessivo de agrotóxico. “Nós sabemos que isso é pelo excesso de agrotóxico. Eu sou da biologia, então sempre coloco a evolução nesse ponto porque se você vai passando veneno ali, você sempre vai ter uma ou outra praga, uma ou outra plantinha que vai sobreviver. Essas vão criar resistência e vai passando para outra e para outra. Hoje vemos nas lavouras o povo até carpindo, no convencional, carpindo buva por conta dessa resistência que tem dos agrotóxicos”, disse.
No caso das sementes crioulas, o cuidado também se estende no armazenamento. “As sementes crioulas a gente precisa tomar certos cuidados com essa questão, principalmente época de plantio, cuidado para armazenar. Nós temos ainda um problema com a questão do armazenamento porque as pessoas, os nossos guardiões, guardam as sementes dentro de garrafa pet. Ainda é o melhor sistema que tem, porque você tira todo o ar dali, fecha ela bem fechadinha, não cria caruncho, nada”, explica Renato.
O problema é que nem sempre o armazenamento é feito corretamente e o agricultor pode perder a variedade de semente. “Acontece que algumas pessoas não fazem isso. Às vezes, plantam toda a semente. Vai lá e naquele ano deu uma seca, alguma coisa e perde essa semente. Nós trabalhado essa questão de ter os bancos familiares de sementes, que as pessoas terem um lugarzinho para guardar sementes”, disse.
Renato explica que é preciso guardar as melhores sementes. “As pessoas colhem as melhores e deixam as piores para deixar para a semente. Nós sempre falamos: ‘Não gente, tem que colher sempre, deixar as melhores para fazer a semente porque é essa que você vai ter para o ano’”, explica.
Por isso, os movimentos estão trabalhando em pautas que deem assessoria aos agricultores, informando o melhor meio de cultivo das sementes crioulas. “Uma das coisas que queremos pautar é isso, de ter um projeto de ATER [Projeto de Assistência Técnica e Extensão Rural] que dê assessoria a essas famílias para esse tipo de produção. Nós da AS-PTA, nós vamos lá, conversa com um, com outro. O sindicato repassa também várias informações para os agricultores, mas ainda não é o suficiente, principalmente para essas mais sensíveis, vamos dizer assim, sementes mais sensíveis”, disse.
Programação de sábado da 20ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade
8h30 – Recepção das caravanas e dos expositores. Café da Partilha (trazer um alimento para partilhar).
9h – Abertura das exposições e Mística de abertura da feira
9h30 – Abertura oficial da Feira
11h- Benção inter-religiosa das sementes
12h- Almoço
13h30 – Terceira roda de debates agroecológica
15h- Partilha das sementes
17h- Enceramento