Vítima relata abuso sexual cometido por dentista em Teixeira Soares

08 de abril de 2026 às 00h02m

Relato expõe abusos ocorridos na infância, silêncio por décadas e surgimento de novas denúncias após prisão do suspeito/Paulo Sava e Diego Gauron

Foto: Diego Gauron

Resumo: – Por questões de segurança, idade da vítima foi preservada;

  • Vítima procurou nossa reportagem espontaneamente para compartilhar sua história;
  • Mulher afirma que comportamento do acusado se repetia em diversos ambientes.

Uma das vítimas de um dentista acusado de abuso sexual concedeu entrevista exclusiva revelando detalhes do caso, ocorrido há cerca de 30 anos, em Teixeira Soares. O profissional foi denunciado pelo Ministério Público. No entanto, devido ao tempo decorrido, o crime está prescrito e não pode mais ser julgado pela Justiça.

Por questões de segurança, a identidade da vítima foi preservada. Na reportagem em vídeo, que você pode assistir no Instagram da Najuá, a voz da entrevistada também foi distorcida para evitar qualquer tipo de identificação.

A vítima procurou a reportagem espontaneamente e decidiu compartilhar sua história, contribuindo para dar visibilidade ao caso. Durante a entrevista, a vítima relatou episódios ocorridos ainda na infância, dentro do convívio familiar. Segundo ela, o suspeito se aproveitava de momentos em grupo para cometer os abusos.

“Ele deitava todo mundo no chão, as primas, porque a família era bastante grande e ele sempre escolhia uma vítima para colocar do lado e ele foi debaixo da coberta e tocava na gente para fazer a gente tocar nele”, contou.

Ela afirmou que as situações eram disfarçadas como brincadeiras, o que dificultava a compreensão das vítimas na época. “Era obrigatório isso? Era, porque era muito disfarçado, era em tom de brincadeira. Como a gente não entendia muita coisa, era isso que ele fazia”, relatou.

A entrevistada disse ainda que os abusos ocorreram diversas vezes e que, por muitos anos, bloqueou as lembranças como mecanismo de defesa. “Eu não lembro quantas vezes, até porque por muito tempo eu bloqueei, fui destravada em terapia. Algumas coisas eu lembrava, outras fui lembrando com o tempo, mas comigo foi inúmeras vezes”, afirmou.

Segundo ela, o comportamento do acusado não se restringia a um único ambiente ou momento. “Não, é tudo o mesmo, o mesmo jeito que ele fazia… na piscina, assistindo filme, no sofá”, disse, ao comentar relatos semelhantes de outras vítimas.

A decisão de procurar as autoridades ocorreu recentemente, motivada pela preocupação com possíveis novas vítimas, já que o acusado atuava como dentista atendendo crianças e adolescentes. “Isso foi me inquietando. E eu resolvi procurar ajuda da promotoria, para que eu também não fosse prejudicada e não fosse só uma denúncia”, explicou.

Após a divulgação do caso, outras vítimas procuraram a polícia. Algumas entraram em contato com a entrevistada para agradecer. “Agora eles vão acreditar em mim”, disseram, segundo ela.

A vítima acredita que a denúncia pode incentivar outras pessoas a romperem o silêncio. “O intuito disso é mexer numa ferida… mas o alívio que elas sentiram em poder falar e ver que vão ser ouvidas é muito grande”, destacou.

Ela também relatou que só conseguiu enfrentar o trauma após anos de tratamento psicológico. “Agora faz uns 10 anos que eu me trato psicologicamente, com terapias, com remédio… foi aí que eu consegui juntar força para curar o meu processo”, disse.

Ao comentar a reação da família, contou que inicialmente houve dificuldade de compreensão. “A primeira reação dela foi perguntar por que eu não falei antes… depois ela ficou em choque, muito chateada”, relatou sobre a mãe.

Hoje, a entrevistada afirma que fala abertamente sobre o tema, inclusive com os filhos, e reforça a importância do diálogo. “Os pais precisam acolher seus filhos quando eles falam… a vergonha não é da vítima e não é da família da vítima”, enfatizou.

Sobre o desfecho do caso, ela diz não sentir ódio, mas teme que o acusado volte a cometer crimes. “Eu só não quero que ele volte para a sociedade… foram 30 anos fazendo o mesmo crime”, afirmou.

O caso ganhou repercussão após a denúncia do Ministério Público do Paraná, que acusa o dentista de estupro de vulnerável. Ele foi preso no início de março em Teixeira Soares, e o processo tramita sob sigilo. Após a prisão, novas denúncias surgiram.

A defesa do acusado, por meio dos advogados Felipe Henrique Rosgrim Petrin e Débora Weunertrax Petrin, afirmou em nota que a denúncia se baseia em “um único fato com data determinada em 2009” e alegou inconsistências na acusação, que deverão ser discutidas ao longo do processo.

A psicóloga, vereadora e procuradora da mulher da Câmara de Irati, Sybil Dietrich, destacou que o silêncio das vítimas é comum em casos de abuso. “São diversos fatores, como medo, dependência, culpa e vergonha”, explicou. Segundo ela, a existência de uma rede de apoio e a divulgação de informações são fundamentais para encorajar denúncias.

O caso reacende o debate sobre a importância de ouvir vítimas, fortalecer mecanismos de proteção e combater a cultura de silêncio em situações de violência sexual, especialmente quando envolvem crianças e adolescentes.

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