Médica veterinária Cristina Barra do Amaral Bittencourt detalhou treinamento, alimentação, exames obrigatórios e estrutura de apoio que acompanham os animais durante os cerca de 900 quilômetros de percurso/Paulo Sava e Juarez Oliveira

Resumo:
-Veterinária afirmou que uma cavalgada dessa dimensão exige preparo dos cavaleiros e dos animais;
-Conceito de bem-estar animal é baseado em critérios científicos e nas chamadas cinco liberdades, que servem como referência para avaliar as condições dos animais;
-Animais iniciaram preparação cerca de três meses antes da saída para a cavalgada.
Enquanto três moradores de Irati percorrem aproximadamente 900 quilômetros a cavalo até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, outro aspecto chama atenção na romaria: o planejamento realizado para garantir a saúde e o bem-estar dos animais que acompanham a viagem.
Em entrevista à Najuá, a médica veterinária Cristina Barra do Amaral Bittencourt explicou que uma cavalgada dessa dimensão exige muito mais do que preparo físico dos cavaleiros. Segundo ela, os verdadeiros protagonistas da jornada são os animais, que precisam de uma série de cuidados antes mesmo da partida e durante todo o percurso.
Cristina destacou que o conceito de bem-estar animal é baseado em critérios científicos e nas chamadas cinco liberdades, que servem como referência para avaliar as condições dos animais. “O animal deve estar livre de fome e sede, livre de desconforto, livre de dor, ferimento ou doença, livre para expressar seu comportamento normal e livre de medo e estresse. Esses são os cinco pilares do bem-estar animal”, explicou.
Ela ressalta que esses critérios são avaliados antes mesmo da viagem começar. Todos os animais passaram por exames clínicos para verificar se apresentavam condições de saúde adequadas para enfrentar aproximadamente um mês de deslocamento. “Fazemos esse preparo para verificar se eles realmente estão aptos a seguir viagem. Caso algum animal apresente alguma condição desfavorável, ele não participa da romaria”, afirmou.
Assim como acontece com atletas que se preparam para uma competição de longa distância, os animais iniciaram o treinamento cerca de três meses antes da saída de Irati. Durante esse período, foram realizadas caminhadas progressivas para desenvolver resistência física, além da adaptação ao convívio com outros animais, veículos, pessoas e diferentes situações que poderiam ser encontradas durante o trajeto. “Eles fizeram caminhadas de longa distância para adquirir resistência física. Também treinaram o contato com caminhões, carros, pessoas e outros animais. É um preparo semelhante ao de um atleta, aumentando gradativamente as distâncias até chegar o momento da viagem”, destacou a veterinária. Além do condicionamento físico, a alimentação foi planejada para atender ao desgaste diário.

Alternância entre os animais reduz o desgaste
Segundo Cristina, a comitiva percorre entre 30 e 35 quilômetros por dia, sempre em ritmo de caminhada e com várias paradas programadas. Os cavaleiros utilizam um sistema de revezamento entre os animais. Após aproximadamente 15 quilômetros, é feita uma parada para descanso e hidratação. Em seguida, ocorre a troca da montaria, permitindo que o primeiro animal recupere as energias enquanto outro assume o percurso. “Eles andam cerca de quinze quilômetros montados em um animal, fazem a pausa, dão água, descansam um pouco e depois trocam para outro animal. Essa alternância é muito importante para evitar desgaste excessivo”, destacou Cristina.
Ao final de cada etapa, os animais permanecem soltos para descansar e expressar comportamentos naturais. A veterinária contou que acompanhou as primeiras imagens da viagem e observou um exemplo desse comportamento. “Assim que chegou ao local de descanso, um dos animais foi se espojar. Isso faz parte do comportamento natural deles e precisa ser respeitado”, ressaltou.
A rotina alimentar também foi planejada para garantir energia suficiente durante a viagem. Cada animal recebe aproximadamente três quilos de ração antes da saída diária e outros três quilos ao final do percurso, além de feno da variedade Tifton. A água é oferecida antes da partida, durante as paradas e novamente no final do dia. “Eles recebem água antes de sair, durante o caminho e depois ficam à vontade para beber e descansar quando chegam ao local da parada”, afirmou Cristina.
Grande parte da expedição utiliza muares — burros e mulas —, considerados mais resistentes para viagens longas. Cristina explica que esses animais são resultado do cruzamento entre éguas e jumentos e apresentam características que favorecem deslocamentos em terrenos irregulares. “Eles têm cascos mais resistentes, excelente equilíbrio e escolhem muito bem onde pisam. São animais extremamente apropriados para percorrer longas distâncias em estradas de chão e regiões pedregosas”, pontuou.
Os animais da comitiva possuem idades entre aproximadamente três e onze anos. Segundo a veterinária, a presença de animais mais experientes também ajuda os mais jovens durante a viagem.
Exames obrigatórios e documentação
Antes da saída, todos os animais realizaram o exame de Anemia Infecciosa Equina (AIE), exigido para o transporte interestadual. Após a confirmação dos resultados, foi emitida a Guia de Trânsito Animal (GTA), documento obrigatório para a viagem.
Cristina informou ainda que encaminhou antecipadamente toda a documentação ao veterinário responsável pelo Centro Receptivo Equestre de Aparecida. “Dessa forma eles já sabem quando a comitiva deve chegar e conseguem organizar a recepção dos animais”, ressaltou.
Além dos cavaleiros, um caminhão de apoio acompanha a expedição transportando ração, feno, medicamentos, equipamentos e toda a estrutura necessária para a viagem. Também fazem parte da equipe um motorista e um cozinheiro, responsáveis pela logística da comitiva. Segundo Cristina, toda a rota foi planejada antecipadamente, inclusive os locais onde os animais fariam as paradas diárias. “Não é qualquer propriedade que consegue receber uma comitiva desse porte. Todos os locais de descanso foram definidos previamente”, comentou.
Ao chegarem ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, os animais serão encaminhados ao Centro Receptivo Equestre, espaço preparado para receber cavalgadas vindas de diversas regiões do país. O local oferece estrutura para hospedagem dos animais, hidratação, alimentação, atendimento veterinário, duchas de gelo e troca de ferraduras, quando necessário.
Cristina afirmou que, seguindo todo o planejamento elaborado antes da partida, os animais não devem sofrer durante o percurso. “Os muares são naturalmente preparados para esse tipo de deslocamento. Como existe alternância entre eles, alimentação adequada, hidratação constante, descanso e acompanhamento veterinário, eles não vão sofrer durante a viagem”, afirmou.
Ela também destacou que a convivência em grupo contribui para reduzir o estresse dos animais. “Eles gostam de permanecer junto de outros animais da mesma espécie. Isso faz com que se sintam mais seguros durante toda a caminhada”, destacou Cristina.
Romaria une fé, planejamento e responsabilidade
Os três cavaleiros deixaram Irati na última terça-feira, 21, após receberem a bênção religiosa e seguem em direção ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida em uma peregrinação de agradecimento pelas graças recebidas. Para Cristina, além da demonstração de fé, a viagem representa um exemplo de planejamento e de respeito aos animais. “Foi muito emocionante acompanhar essa preparação. É uma demonstração de fé, mas também de responsabilidade com os animais, que receberam todo o cuidado necessário para realizar essa jornada”, finalizou.