Pronto Atendimento Psicológico possibilita atendimento psicológico gratuito para trabalhadores em Irati/ Texto de Karin Franco, com reportagem de Paulo Sava e Rodrigo Zub

Um projeto da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro) possibilita que trabalhadores busquem atendimento psicológico gratuito. O Pronto Atendimento Psicológico foi criado para atender a necessidade de escuta e apoio aos trabalhadores, que enfrentam diversos problemas, como pressão no trabalho, assédio sexual, ansiedade e depressão.
Desde 2007, a universidade oferece o serviço de atendimento psicológico aos trabalhadores de modo presencial e agora, após a pandemia, também passou a oferecer o serviço de modo online. O Pronto Atendimento Psicológico ainda atende trabalhadores empregados ou desempregados. “Nós atendemos a todos os trabalhadores que estejam atuando, seja em um trabalho formal ou informal, porque não precisa ter carteira assinada. Sejam aquelas pessoas que de alguma forma já perderam o trabalho ou estão numa situação de desemprego e que de alguma forma estejam em sofrimento, que estejam com alguma dificuldade”, explica a professora Cláudia Regina Magnabosco Martins, do curso de Psicologia
da Unicentro.
A professora conta que sempre houve a necessidade de um atendimento de escuta aos trabalhadores, mas que nos últimos anos, especialmente após a pandemia, a demanda tem aumentado. “Isto avançou nos últimos anos, com a precariedade do trabalho, com as dificuldades de termos trabalho para todos ou os trabalhos que existem sendo muito exigentes, pouco acolhedores às situações que as pessoas vivem. A pandemia piorou isso. Eu posso dizer que isto não é uma novidade, a necessidade de ouvir os trabalhadores, mas ela tem piorado de alguns anos para cá”, conta a professora.
Entre os casos atendidos estão pessoas que sofrem com algum grau de depressão ou ansiedade. “Tem pessoas que sofrem em relação à pressão de colegas, à pressão de chefias, seja para trabalhar mais em diferentes funções que não estavam previstas antes, pressão para atender a públicos cada vez mais distintos, mas também assédio moral, assédio sexual, depressão, muita ansiedade. Ansiedade em relação à tudo que se tem que produzir, muitas vezes sem condições”, explica.
O atendimento no Pronto Atendimento Psicológico é realizado para que as pessoas possam ter um local onde possa encontrar a forma mais imediata de falar sobre os problemas que ocorrem relacionados ao ambiente de trabalho. Se não for resolvida ou amenizada a situação, a demanda é encaminhada para outros serviços e o trabalhador é orientado sobre quais atendimentos podem buscar, além do psicológico. É o caso de situações que envolvem questões de violência à mulher ou direitos trabalhistas, por meio da atuação do Ministério Público do Trabalho e dos sindicatos das categorias.
A professora destaca que os casos que chegam até o Pronto Atendimento Psicológico já estão em uma situação mais avançada. “O que temos visto que ela [a pessoa] chega já muito ruim. Não é uma situação de procura quando ela está começando a sentir os problemas, ela já está num nível avançado. O que posso dizer é que muitas empresas, muitas organizações, estão pouco abertas a ouvir o seu trabalhador. Os recursos humanos também. O que nós precisamos fazer e fazemos em estágios, em palestras, em oficinas, é buscar discutir como a forma que as empresas estão organizadas, atinge diretamente a saúde ou o adoecimento do seu trabalhador e que, portanto, precisam se preocupar com isso todos os dias e de diferentes formas”, disse.

A falta dessa preocupação faz com que a busca pelo atendimento demore. “Ocorre que nem sempre isso é visto com tanto cuidado da parte dos empresários e esse trabalhador nem sempre consegue uma abertura o suficiente para chegar e dizer o que está acontecendo. Ou diz, mas também nem sempre é ouvido. Muitas vezes, ele já chega muito frágil, muito abalado ou até já com alguma patologia, com algum adoecimento, e demora um pouco para se sentir forte o suficiente para dizer o que está passando”, conta Cláudia.
Sem a procura de ajuda, o corpo também reage com sintomas físicos. “Se reflete em várias dores, em vários sintomas estomacais, intestinais, dores de cabeça, dores de coluna, dores nos braços, mas também nessa situação mesmo de sentir frágil, sozinho, desamparado, de se sentir incompetente muitas vezes, incompreendido. É como se a pessoa não tivesse – e ela não tem realmente – força o suficiente para lidar com a situação, para enfrentar aquelas situações, pessoas que sejam extremamente violentas ou que sejam muito diretivas na forma de atuar”, explica.
A professora alerta que o próprio ambiente de trabalho pode causar a doença no trabalhador. “Quando esse trabalho é muito rígido em termos de metas, de regras, de vigília, de fiscalização ou tem um ritmo muito forte, ele não dá descanso para as pessoas, não só o descanso físico, mas também o psicológico, é uma organização que de alguma forma não permite que os seres humanos se mostrem, eles convivam entre si, ele costuma causar adoecimento”, disse.
O uso de ameaças com o objetivo de melhorar a produtividade também pode deixar consequências que trarão o resultado oposto. “Outra situação que tem sido muito comum agora são as empresas deixarem o trabalhador muito sensível, muito preocupado e inseguro, de perder o emprego. Se fala coisas ruins o tempo todo dele, denigre o que ele faz ou o que ela faz, deixa inseguro de que esse trabalho vai permanecer, de que ele vai ser demitido. São modos que parecem interessantes para fazer a pessoa trabalhar, mas vão deixando ela cada vez mais insegura. Quanto mais inseguro, mais erros. Quanto mais erros, mais eu quero demitir”, analisa Cláudia.

A professora comenta que essa exigência no ambiente de trabalho pode ser a origem para alguns problemas psicológicos. “Em uma situação em que eu fico extremamente preocupado o tempo todo, atento, eu acabo usando de muita energia, usando de substâncias do nosso organismo que faltam para outras coisas. Eu posso desenvolver medos, desenvolver insegurança, desenvolver a necessidade de me alimentar mais pela ansiedade ou menos, desenvolver dores estomacais, dores de coluna, de cabeça e uma outra infinidade de situações. Mas sobretudo, eu acabo duvidando da minha condição, duvidando da minha capacidade e também não conseguindo desenvolver as minhas habilidades de forma a desempenhar o trabalho como é esperado. Isso parece ser da pessoa num primeiro momento, mas isso é produzido pelas condições de trabalho ofertadas pela organização”, disse.
O atendimento no Pronto Atendimento Psicológico é realizado por professores e alunos da Unicentro, disponibilizando atendimento gratuito. A Unicentro ainda possui um convênio com a Universidade Estadual de Maringá, que realiza alguns atendimentos quando há necessidade. “Também atuamos dentro das empresas, dentro das organizações, mas inauguramos o Pronto Atendimento dentro da Unicentro, justamente para que os trabalhadores possam buscar o serviço quando estiverem mais necessitados e mais fragilizados, buscar sozinho”, conta.
Os atendimentos presenciais ocorrem no Serviço-Escola, com sessões de 50 minutos a uma hora, com cinco a dez sessões, uma por semana. É possível marcar atendimentos de segunda a sexta-feira, incluindo manhã, tarde e noite.
Para acessar, é preciso preencher uma inscrição online e indicar quais são os horários em que pode realizar a sessão.
Após a finalização dos atendimentos, não há um acompanhamento, mas uma avaliação final. “Temos uma prerrogativa de que a pessoa que procura ela está naquele momento necessitada e tem uma determinada situação. Nós fazemos os atendimentos. Há uma alta, a partir de quando ele se sente bem. A própria pessoa nos diz isso e nós também avaliamos. Fazemos uma avaliação posterior de como a pessoa se sentiu, de como ela está. Cerca de 15 dias depois enviamos um formulário também para que ela preencha e deixa aberto para a volta, caso necessite”, disse.
A professora explica que esse tipo de atendimento não busca especificamente por uma cura. “Nós não buscamos curar nada. Buscamos que a pessoa entenda como ela funciona, o que está acontecendo ali, busque outros recursos e saiba lidar melhor com aquilo que está sendo difícil para ela”.
O telefone do Pronto Atendimento Psicológico é (42) 9-9964-0384 (WhatsApp) e do Serviço-Escola é (42) 9-8822-5141 (WhatsApp).
