Sem acordo, representação dos produtores de tabaco suspende negociação

31 de janeiro de 2019 às 10h35m

Após duas rodadas de negociações com as fumageiras, produtores de tabaco ainda não obtiveram uma oferta satisfatória para definir o preço do tabaco na safra 2018/2019

Edilson Kernicki, com reportagem de Rodrigo Zub e Paulo Henrique Sava 
Após duas rodadas, uma no começo de dezembro, em Santa Catarina, e outra na metade de janeiro, no Rio Grande do Sul, as entidades representativas do tabaco decidiram suspender as negociações que definiriam o preço do tabaco na safra 2018/2019. Essas entidades são a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), as Federações dos Sindicatos Rurais (FAEP, Faesc e Farsul) e as Federações dos Trabalhadores Rurais (FETAEP, FETAESC e FETAG).
A suspensão das negociações se deve ao fato de que as propostas apresentadas ficaram abaixo da variação de custo apresentada tanto pelas empresas como pelas entidades para cada empresa. Duas foram exceção. Porém, uma ofereceu reajuste com percentual acima da variação do custo de produção, sem reajuste linear. A segunda, por sua vez, apresentou proposta de reajuste acima do custo próprio, mas abaixo do custo apurado pelas entidades.
A Representação dos Produtores de Tabaco também diverge das empresas quanto à oferta que elas fizeram de aumento diferenciado por classe. Uma delas chegou a propor redução no valor de algumas classes em comparação à tabela da safra anterior. Outra empresa desrespeitou o processo de negociação e anunciou aos produtores o percentual que ofereceria antes mesmo da reunião, o que contribuiu para desestabilizar a negociação com as demais empresas.
O presidente do Sindicato Patronal Rural, Mesaque Kecot Veres, que também representa a Federação dos Agricultores do Estado do Paraná (FAEP) em assuntos relacionados à agricultura familiar e ao tabaco, participou da segunda rodada de negociações do preço do tabaco.
Segundo ele, pode ocorrer uma nova tentativa de negociação agora em fevereiro. Porém, segundo a Afubra, essas negociações só devem ser retomadas a partir de uma mudança de postura das indústrias, pois os produtores aguardam que elas revejam suas posições.
A atividade fumageira envolve 29 mil famílias e alcança cerca de 120 mil trabalhadores, no Paraná. É uma cultura de importância social muito grande, tendo em vista que o tabaco movimenta hoje, no Sul do Brasil, mais de R$ 5 bilhões.
Mesaque analisou que, em outras culturas, esses valores se concentram nas mãos de poucos produtores, latifundiários, ao passo que, no caso da fumicultura, é uma atividade essencialmente baseada na pequena propriedade. Somente em Irati, mais de 1,7 mil famílias trabalham com o tabaco.
Quanto à negociação, o presidente do Sindicato disse durante entrevista no programa “Meio Dia em Notícias” que precisa haver uma relação de equilíbrio, pois de um lado existem milhares de produtores familiares e, de outro, um grupo de cerca de dez a 12 megaempresas fumageiras e, entre elas, três que estão entre as maiores empresas do mundo.
“Não assinamos protocolo com nenhuma empresa, porque nenhuma trouxe uma proposta à altura. A Representação dos Produtores trabalha em duas frentes. Uma é trabalhar sobre o reajuste dos preços e outra é a eterna exigência que fazemos que as empresas sejam justas e adequadas na hora da compra”, afirma.

Propostas recusadas

A Lei 13.288/2016 estabelece, segundo Mesaque, que haja as negociações de preços através de uma metodologia adequada, feitas pela própria Cadeia Produtiva, pelo Fórum Nacional de Integração do Tabaco (Foniagro) e as Comissões para Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração (CADECs). “É reunido com cada empresa em separado e é discutido o custo de produção de cada empresa. A JTI ofereceu 4,5%, um pouquinho a mais da variação do custo estabelecido pela empresa, mas estava um pouco abaixo do que a Representação tenha apurado. Talvez tenha faltado um pouco de diálogo e nós teríamos conseguido assinar o protocolo com a empresa JTI”, comenta.
Outras duas empresas apresentaram índices considerados favoráveis. A CTA, que teve variação de custo de 2,68%, e ofereceu 3,18% e a Souza Cruz, que ofereceu 3,08%.
As demais estão abaixo da variação do custo. “Já a Phillip Morris ofereceu 2,1%, só para alto pé. Então, fiz uma conta que, na média, isso só vai atender a 70% da planta. Na verdade, eles ofereceram um reajuste de 1,47%. É muito pouco”, analisa. A Universal indicou, em seus cálculos, uma defasagem de 3,91% no cálculo do custo e ofereceu 2,5% de reajuste.
Na Alliance One, a variação do custo calculado pela empresa foi de 2,21% e a oferta de reajuste foi de 1,6%. A China Brasil Tabacos teve variação de 2,4% no custo e oferta de reajuste de 1,8%. “Não entendemos como pode eles mesmos apurarem uma variação do custo e chegarem a oferecer menos”, protesta.
Conforme o presidente do Sindicato, o custo de produção por hectare é, em média, de R$ 21 mil. A produtividade, por sua vez, corresponde à quantidade de quilos de tabaco por hectare. A Secretaria de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos (U.S. Bureau of Labor Statistics) define a produtividade como a medição da eficiência econômica, que mostra como os recursos efetivamente disponíveis são convertidos em produtos.
“A produtividade tem que ficar para o produtor. Fiz um cálculo, depois que uma empresa falou na possibilidade de aumento de produtividade de 2% ao ano. Pegando uma produtividade médica de 2,6 mil quilos por hectare, que aumente 2% ao ano, em dez anos, teríamos, em vez de 2,6 mil quilos por hectare, 3.176 quilos, 576 quilos a mais. Se pegarmos esses R$ 21 mil e dividirmos pelos 2,6 mil quilos, dá R$ 7,68 [por quilo]. Se pegarmos os mesmos R$ 21 mil e dividirmos pelos 3.176 quilos, teremos só R$ 6,48 por quilo. Com quem fica essa diferença de R$ 1,20 por quilo? Essa diferença tem que ficar com o produtor, que tem que ganhar porque foi eficiente em aumentar a produtividade”, argumenta.

Queda na produção

A China, maior produtora de tabaco do mundo, há três anos, produzia 2,4milhões de toneladas. De lá para cá, reduziu a produção em 600 mil toneladas – o que equivale à produção brasileira. Ou seja, passou a produzir 1,8 milhões de toneladas, uma redução de 25% em três anos, atribuída também à queda no consumo. “No Paraná, tínhamos 36 mil famílias [trabalhando com fumo]. Hoje temos 29 mil. São 6 mil famílias a menos nos últimos anos”, diz.
Mesmo sem um levantamento específico sobre o destino dessas 6 mil famílias que deixaram de trabalhar com a fumicultura, Mesaque indica observações empíricas que o levam a crer que há uma tendência ao êxodo rural e a dificuldade na sucessão familiar na atividade, uma vez que ela costuma ser exercida por produtores acima da faixa dos 40 anos.
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