Reuniões ocorrem na Paróquia São Miguel, às quartas e aos sábados, e na Perpétuo Socorro, às quintas
Edilson Kernicki, com reportagem de Rodrigo Zub
O grupo Alcoólicos Anônimos (AA) convida os iratienses a participarem de suas reuniões. O grupo Irati se reúne na Paróquia São Miguel, às quartas, às 20h, e aos sábados, às 16h. As reuniões semanais do grupo Liberdade ocorrem na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Rio Bonito, às quintas, às 20h.
Nas chamadas “Reuniões de Recuperação”, são lidos trechos dos Doze Passos e das Doze Tradições. Você pode entender um pouco mais sobre os Doze Passos em busca da sobriedade acessando esse link: https://www.aa.org.br/index.php/sobre-o-a-a/categorias/principios-de-a-a/47-os-doze-passos. Depois, os alcoólicos recuperados, espontaneamente, dão seus relatos e testemunhos. A reunião é aberta também a não-alcoólicos, para aqueles que buscam ajuda a algum familiar ou amigo.
A participação nas reuniões de Irati atinge entre 15 a 20 pessoas. Segundo os membros, o primeiro passo nesse caminho em busca da recuperação da sobriedade é admitir que tem um problema com o alcoolismo, uma doença ainda sem cura e que, geralmente, é progressiva. Nesse sentido, um dos objetivos perseguidos por quem frequenta o AA é a renúncia e a abstinência, ao “evitar o primeiro gole”, com o lema “Só por hoje, não”.
Um dos princípios do grupo é o de preservar o anonimato de seus membros. Para respeitar esse princípio, optamos por identificar nossos entrevistados como “Membro 1” e “Membro 2”. O “Membro 1” frisa que o alcoolismo é um fator que atinge não apenas o alcoólatra como também quem está ao seu redor, pois interfere em sua rotina familiar e de trabalho. Para ele, o maior desafio a ser enfrentado é admitir o vício. “Demorei para admitir, mas agora, depois que admiti, tirei um peso da minha vida e, graças a Deus, minha vida mudou por completo”, relata.
O “Membro 2” explica que o AA possui 36 princípios. “Temos 36 princípios que movem a Irmandade de Alcoólicos Anônimos. São 12 princípios para a recuperação; 12 princípios para guiar os grupos dentro da Irmandade e 12 passos para guiar a Irmandade no mundo”, diz. Segundo ele, o alcoólico é visto pela sociedade, muitas vezes, como uma pessoa negligente, displicente, fraca e sem caráter, quando, na verdade, é um portador de uma doença de caráter físico, psicológico, emocional e espiritual.
“O AA é uma Irmandade movida pela atração e não pela promoção. Não estamos fazendo propaganda. Nossa intenção é comunicar que existe essa Irmandade funcionando na nossa cidade. Qualquer pessoa, de qualquer credo ou religião, independente disso, é bem-vinda aos Alcoólicos Anônimos. O único requisito a ser preenchido é o desejo sincero de parar de beber. O primeiro passo de AA, que é o único passo que dizemos que tem que ser feito 100%, é bem claro quando diz que ‘admitimos que éramos impotentes perante o álcool e que havíamos perdido o domínio sobre as nossas vidas’. Dessa forma que nos entendemos e nos reconhecemos como alcoólatras”, define o “Membro 2”.
Para ele, a proposta do AA vai além de contribuir para a abstinência e sobriedade, é uma “reformulação do caráter”. “Dentro do AA, nós renascemos. Eu aprendi a perdoar, a reconhecer meus erros, a pedir perdão. Voltei a acreditar num Deus que eu achava que não existia mais ou que não gostava de mim. Reconquistei minha família, meu emprego e reconstruí minha vida a partir do momento que aprendi os ensinamentos de Alcoólicos Anônimos”, cita.
Dentro da Irmandade, não são cobradas taxas ou mensalidades, nem anotadas estatísticas ou mantidos registros e nomes, por não ser uma empresa nem se entender como uma instituição, mas como um grupo de pessoas com um interesse em comum. “O AA tem que ser conhecido pela população. Mas o membro da Irmandade é anônimo. Ele vai abrir o anonimato e falar publicamente que é alcoólatra se for do desejo dele. O que acontece dentro das reuniões, o que a pessoa fala em seu depoimento é de ordem pessoal, reflete o pensamento dele e fica dentro da reunião. Ninguém sai da reunião apontando fulano, ciclano ou beltrano. Formamos uma Irmandade maravilhosa, nos sentimos realmente irmãos e nos preocupamos uns com os outros e estamos lá única e simplesmente para manter nosso princípio primordial que é levar essa mensagem e ajudar outros a encontrar o caminho que encontramos”, sustenta.
O “Membro 2” menciona que, em longo prazo, o consumo de álcool pode conduzir a pessoa a problemas físicos, como cirrose hepática e doenças cardíacas, renais e cerebrais. Além disso, o alcoolismo pode refletir “efeitos colaterais”, como brigas, cenas de violência doméstica e acidentes de trânsito, por exemplo. Nesse aspecto, o álcool pode desencadear danos que afetam até mesmo aqueles que não bebem.
AA nas novelas
A inserção do tema dos Alcoólicos Anônimos na teledramaturgia, quando o alcoolismo é exibido em séries, filmes e novelas é vista de forma positiva pelo “Membro 2”. O tema tem sido recorrente nas novelas brasileiras desde 1988, quando a personagem Heleninha Roitman (Renata Sorrah) roubou a cena em Vale Tudo. Na reta final, ela conhece William (Dênis Carvalho), que a leva às reuniões do AA.
Manoel Carlos também retratou alguns casos emblemáticos de alcoólatras que recorreram ao AA: Orestes (Paulo José), em Por Amor (1997); Santana (Vera Holtz), em Mulheres Apaixonadas (2003); Bira (Eduardo Lago), em Páginas da Vida (2006); Renata (Bárbara Paz), em Viver a Vida (2009) e Felipe (Thiago Mendonça), na novela “Em Família” (2014).
Gilberto Braga, em 2003, retratou a luta contra o alcoolismo do jornalista Cristiano, interpretado por Alexandre Borges, na novela Celebridade.
O AA faz parte da “jornada do herói” de Diduzinho, personagem de Fabrício Bolivera em “A Favorita” (2008), novela de João Emanuel Carneiro. Ele se recupera do alcoolismo e se torna prefeito da cidade fictícia de Triunfo.
Surgimento
Em Irati, o AA completa 36 anos em 13 de agosto. A origem do grupo se deu em 1935, quando um corretor da Bolsa de Nova York, conhecido como Dr. Bill W., e um médico proctologista, conhecido como Dr. Bob, ambos alcoólicos, se reuniram para conversar, em 12 de maio daquele ano, a fim de buscar um meio de alcançar a sobriedade. Dr. Bill já estava sóbrio havia cinco meses naquela ocasião.
Algumas semanas depois, Dr. Bob participou da Convenção Médica Americana Anual, em Atlantic City (Nova Jersey). Ele bebeu o tempo todo na viagem e na convenção e foi encontrado, na volta, completamente bêbado na estação de trem da cidade de Akron, Ohio, onde ele morava. Ele precisou ser recolhido pela enfermeira de seu consultório e pelo marido dela. Dr. Bob teve um apagamento de 24 horas e levou três dias para se recuperar da ressaca. Pouco depois, ele tinha uma cirurgia para realizar, mas a tremedeira era tanta, que ele sequer conseguia segurar o bisturi.
Dr. Bill W. ofereceu a Dr. Bob uma garrafa de cerveja. A operação acabou sendo bem-sucedida e essa cerveja foi a última gota de álcool bebida pelo Dr. Bob. O último gole do Dr. Bob, em 10 de junho de 1935, na cidade de Akron, Ohio, nos Estados Unidos, é convencionalmente adotado pela irmandade como o surgimento oficial dos Anonymous Alcoholic. No dia seguinte, Bob propôs a Bill que trabalhassem juntos para ajudar outros alcoólicos. Em 28 de junho, abordaram o advogado Dr. Bill D., que foi internado no City Hospital de Akron, por alcoolismo, pela sexta vez num período de quatro meses. Ele foi o membro do AA nº 3. Desde então, outros membros foram sendo “apadrinhados”.
O AA chegou ao Brasil em 1968 e, 15 anos depois, em 1983, na cidade de Irati. O grupo Irati, na Paróquia São Miguel, funciona desde então. Há cerca de 15 anos, surgiu o grupo Liberdade, na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.