Maio é o mês da Luta Antimanicomial; Movimento social busca melhores condições de tratamento para pessoas com sofrimentos mentais/ Marina Bendhack com entrevista de Paulo Henrique Sava e Juarez Oliveira

Resumo
- A Luta Antimanicomial defende tratamento humanizado e o fim do isolamento em manicômios.
- O CAPS II de Irati atende cerca de 130 pacientes com acompanhamento multiprofissional.
- O serviço funciona em regime “porta aberta”, sem fila de espera, oferecendo atendimento integral em saúde mental.
Maio é o mês da Luta Antimanicomial, movimento social que busca ampliar os direitos das pessoas com transtornos mentais e propiciar melhor condição de tratamento para os usuários do sistema de saúde mental. A luta busca a substituição da lógica de isolamento em hospitais psiquiátricos e manicômios por uma rede de atenção comunitária que promova o cuidado em liberdade, com convivência social, autonomia e cidadania. As psicólogas Esther Horn Viveiros e Thaylise Cristina de Oliveira, do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) de Irati, rememoraram a importância dessa luta e elucidaram sobre a atuação do CAPS II na região, em entrevista à Najuá.
Dia 18 de maio é o marco legal da luta antimanicomial, luta que reivindica melhores condições de atendimento para usuários do sistema de saúde mental, contou Thaylise. “A gente não tinha isso que a gente entende como cuidado de saúde mental hoje em dia. Na década de 70 e 80 as pessoas começaram a lutar contra os modelos de saúde mental que eram passados para a população. A gente tinha os chamados manicômios, os hospitais psiquiátricos que passavam por esse modelo asilar, manicomial, que tinham como foco a internação compulsória de pessoas que tinham qualquer questão de saúde mental. As pessoas eram internadas e, às vezes, passavam a vida toda hospitalizadas num tratamento muito cruel, submetidas a procedimentos muito invasivos e, às vezes, elas não tinham perspectiva de sair desses espaços. Então, a gente começa a lutar por um modelo mais humanizado”, explica a psicóloga.
Essa série de reivindicações feitas pela luta antimanicomial resultou na Reforma Psiquiátrica, em 2001. Decorrente da reforma, foi criada a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), estrutura do SUS que organiza, articula e integra os serviços de saúde mental. Ela garante cuidado integral, contínuo e em liberdade para pessoas em sofrimento psíquico ou usuárias de álcool e outras drogas. As RAPS envolvem Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em diferentes modalidades e portes, SAMU, UPAs 24h, além de Unidades de Acolhimento, Serviços Residenciais Terapêuticos e leitos de saúde mental em hospitais gerais.
“A gente ainda tem leitos psiquiátricos nos hospitais, mas eles são feitos para que as pessoas se estabilizem e aí possam voltar a ser tratadas em liberdade. No caso do CAPS, ele trabalha com sofrimento mental grave e persistente, o que pode ser, sim, depressão, transtorno bipolar, pode ser esquizofrenia, pode ser várias dessas questões”, informa Esther.
Na prática, a disponibilidade de tratamentos varia de cidade para cidade. Segundo Esther, no CAPS II de Irati os usuários geralmente vão e passam o dia. Em algumas cidades, vão mais de uma vez por semana. Diferente dos manicômios, que ficavam longe das cidades e do olhar das pessoas, num modelo de divisão, os CAPS buscam a não exclusão de seus usuários da sociedade.
“A reforma acontece há 25 anos. As pessoas realmente têm muito preconceito e muito estigma associado à saúde mental, de fato, e bem nesse caráter punitivista mesmo. Então, você vai ficar internado, você vai pra lá para ser punido. Acho que o CAPS vem nesse sentido de termos essa ideia não moralizante e não punitivista do tratamento, e desse cuidado bem mais humanizado mesmo, bem mais focado na ideia de que as pessoas não precisam ser punidas por ter um transtorno mental”, afirma Thaylise.
O CAPS II de Irati atende atualmente cerca de 130 pacientes de seis municípios da região, contemplando os municípios do Consórcio Intermunicipal de Saúde (CIS-AMCESPAR) exceto Rio Azul, Mallet e Imbituva. Ele oferece oficinas terapêuticas de artesanatos e atividades práticas, grupos terapêuticos, atendimentos individuais psicológico e psiquiátrico e realiza eventos como festa junina e carnaval.
“A gente tem uma equipe composta também por todas essas pessoas, por enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicologia, assistência social, médico psiquiatra, e o paciente tem a possibilidade de passar por todas essas pessoas, e aí tem um tratamento integral também. Porque a gente tem muito disso, que antes o foco era só questões muito específicas, então, tratar aquele sintoma específico, e aí a gente vai mais por essa linha de cuidado integral, de olhar o paciente como um todo, olhar o território, articular com a rede também. Então, o paciente não fica só no CAPS, ele vai ser atendido por toda a rede pública de saúde”, conta Thaylise.
O serviço funciona em regime “porta aberta” mas geralmente as pessoas são encaminhadas para lá pela Unidade Básica de Saúde. Não tem fila de espera, diz Thaylise. “Às vezes naquele dia a gente não vai conseguir atender a pessoa, mas a gente consegue agendar para a próxima semana ou para alguns dias e a pessoa será atendida por algum profissional da equipe, realizará a triagem e os próximos encaminhamentos”, relata.
“Quando a gente fala de luta antimanicomial a gente também está falando de desinstitucionalização, então essa ideia da pessoa não passar a vida toda em um lugar de tratamento. A ideia é que a pessoa vá, seja atendida, faça o seu tratamento e no momento em que ela estiver se sentindo melhor, com um quadro estabilizado de saúde, ela possa receber a alta e ser encaminhada novamente para o postinho ou para outro serviço que seja mais necessário pra ela”, continua a psicóloga.
O contato do CAPS II de Irati, localizado na Rua João Cândido Ferreira nº 40, é o telefone e WhatsApp (42) 3422- 9028. O horário de atendimento é das 8h às 17h, de segunda à sexta-feira.