Uma das ações é a Bolsa Cuidador Familiar que auxilia financeiramente pessoas que cuidam de idosos acamados/Texto de Karin Franco, com entrevista de Rodrigo Zub e Juarez Oliveira

A secretária de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa, Leandre Dal Ponte, se reuniu com o prefeito de Irati, Emiliano Gomes, recentemente, para tratar sobre um projeto piloto voltado a pessoas idosas, que será implantado no município.
Uma das novidades deste projeto é a criação da Bolsa Cuidador Familiar, um auxílio financeiro que será dado pelo Governo do Estado a familiares que dedicam suas vidas aos cuidados de um idoso.
Em entrevista à Najuá, Leandre explicou como funcionará o benefício. “É uma transferência de renda para aquela mulher que precisou largar do mercado de trabalho, hoje não tem renda e precisa cuidar do pai, da mãe, da sogra e do sogro. É uma forma do Estado do Paraná reconhecer e valorizar esse trabalho, através de uma transferência de renda para que ela tenha um pouco mais de dignidade, autonomia financeira porque sabemos que a pessoa deixa de trabalhar, acaba tendo que viver com aquele pouco recurso que a pessoa idosa recebe, que já não dá nem para manter a pessoa idosa. Imagine manter mais essa pessoa cuidando. Ela vem, justamente, para fortalecer essa política do cuidado, para que as pessoas idosas possam ter cada vez mais essa oportunidade de permanecer em casa, ao invés de ser institucionalizado”, explica.
Irati é um dos seis municípios paranaenses escolhidos para participar do projeto-piloto. Também fazem parte desta fase inicial os municípios de Ponta Grossa, Palmeira, Guarapuava, Toledo e Cianorte.
Na reunião do dia 18 de setembro, a secretária tratou das ações que precisam ser feitas no município para a adesão ao projeto. Uma dessas ações é a criação de um Núcleo de Cuidados para verificar quem será beneficiado com o projeto. “Aonde ele vai designar alguns profissionais para que eles possam levantar quais são essas famílias que se enquadram, dentro dos requisitos do programa. A pessoa idosa tem que ser uma pessoa classificada dentro do índice de vulnerabilidade física e funcional em grau de fragilidade. Tem que ser uma pessoa que esteja hoje acamada, principalmente, que são os mais complexos, os casos mais complexos e o cuidador têm que morar na casa e não ter renda. Morar junto com o idoso e não ter renda”, explica.
Leandre relatou que os profissionais desse Núcleo serão responsáveis por cadastrar os beneficiados. “Eles vão fazer o levantamento, vão inscrever esses cuidadores no Cadastro Estadual do Cuidador, que também é um novo serviço que o Estado vai dispor, que nós vamos estar testando aqui também, porque depois, o Cadastro Estadual do Cuidador, vai ser para que todos os cuidadores do Paraná possam se cadastrar porque nós não sabemos hoje onde estão essas pessoas. Não tem como você falar de cuidado, sem falar de pessoas que cuidam. O Cadastro Estadual do Cuidador é uma política do Estado que está sendo desenvolvido através dessa parceria com esses organismos internacionais”, disse.
Entre os organismos internacionais está o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Agência Francesa de Desenvolvimento, que ajudarão o estado com uma cooperação técnica.
O Núcleo de Cuidados terá ainda a função de acompanhar a família do idoso, segundo Leandre.
“O município faz esse Núcleo de Cuidados, onde ele vai selecionar as famílias e depois vai fazer o acompanhamento desse idoso e também nesse cuidador, podendo passar orientações que vão ser transferidas pela nossa equipe para eles. Nós vamos treinar esse Núcleo de Cuidados, eles vão fazer o acompanhamento mensal dessa família, atendendo e ajudando esse cuidador também a cada vez mais ter informação, capacitação para cuidar melhor dessa pessoa idosa e avaliando também as condições, o quanto que esse trabalho está tendo reflexo positivo na qualidade de vida, garantia de direitos e dignidade da pessoa idosa”, explica.
A secretária diz que o projeto ainda precisa ser regulamentado. A previsão é que seja repassado até meio salário mínimo para os cuidadores. “Ele se torna um benefício que, enquanto a pessoa estiver cuidando dessa pessoa idosa e cumprindo os requisitos, ela vai estar recebendo esse recurso, como forma de reconhecimento. Realmente, um fortalecimento na questão do orçamento familiar, mas, principalmente, para que a pessoa que é cuidadora e não tem renda possa ter autonomia financeira, para que ela possa pelo menos ter o mínimo necessário para poder se defender também com questões de uso pessoal”, disse.
O projeto-piloto deve beneficiar até 100 pessoas em todo o estado. Nesta fase inicial, o planejamento é selecionar entre dez e 20 cuidadores em cada município. Caso o projeto-piloto funcione, esse número pode ser expandido. “Nós vamos acompanhar eles por um período de três meses, que é um prazo que temos para depois abrirmos para os outros municípios também poder aderir ao programa e a podermos ampliar para o estado”, conta.
Essa ação faz parte das políticas públicas realizadas dentro do programa Paraná Amigo da Pessoa Idosa, que inclui também a instalação do Complexo Social Cidade do Idoso de Irati, criado para fortalecer a autonomia dos idosos.

O espaço pode receber melhorias em breve com uma verba destinada pelo governo estadual de aproximadamente R$ 600 mil para adaptação no prédio. “Tem muitas famílias que não querem institucionalizar a pessoa idosa, mas não conseguem deixá-la sozinha e precisam trabalhar, porque precisam pôr comida na mesa. Não tem onde deixar essas pessoas. Essa proposta dessa adaptação é para que possamos ter um espaço, que já estava previsto no projeto original, ter um espaço de centro-dia, que é para que aquelas pessoas dependentes de cuidado também participarem do complexo, dando esse respiro para a família. Talvez num primeiro momento não consiga atender todos os dias a mesma pessoa, mas podemos fazer uma escala e ir avançando, para chegar num momento que possamos atender a pessoa todos os dias da semana, como usamos os centros de educação infantil para atender as crianças”, disse.
Leandre relatou que o município de Irati já apresentou os projetos para receber o recurso. “Nós abrimos uma resolução, o município se inscreveu, já apresentou todos os projetos, está com o parecer favorável para ser atendido. Agora, é a depender da dotação orçamentária do estado”, explica a secretária.
Paraná recebe reconhecimento da OMS por trabalho com idosos
O trabalho com o cuidado da pessoa idosa também rendeu ao Governo do Estado um reconhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) por ser o primeiro estado do Brasil e o oitavo do mundo no cuidado com a pessoa idosa. Além do Paraná, apenas outros sete estados do mundo têm esse reconhecimento. “Eu acho que quando uma organização internacional como a Organização Mundial da Saúde reconhece o estado, a primeira coisa que ela valida é que o que você está fazendo, está no caminho certo. Acho que é isso, é um selo de qualidade que recebemos, é um carimbo de quem está trilhando, é o caminho certo. Claro que as nossas políticas são muito inovadoras porque o Paraná é o estado mais adiantado do país”, disse.
Casa da Mulher Paranaense em Irati
Um dos projetos realizados pela Secretaria de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa em Irati é a construção de uma unidade da Casa da Mulher Paranaense. Irati é um dos 30 municípios que foram contemplados com o projeto no estado.
Segundo a secretária, o projeto busca fortalecer a autonomia feminina e auxiliar com a independência financeira, trazendo formação pessoal profissional e empresarial. “Dentro desse espaço vai funcionar atendimento à mulher vítima de violência, vai funcionar atendimento de mulheres que são empreendedoras, com acesso a crédito do Banco da Mulher Paranaense, que vai estar funcionando dentro da Casa da Mulher Paranaense, vai ter espaço de formação profissional para essas mulheres entrarem no mercado de trabalho. Vamos ter parceria com o Senac, com o Sesc, com o Sebrae, também vai ter formação, para que essas mulheres possam empreender dentro da área do empreendedorismo. Ela vai ser realmente um centro de capacitação e formação para as mulheres”, disse.
O processo para a liberação de recursos já está aberto no Paraná Cidade. Leandre afirma que o município ainda precisa fazer a licitação para iniciar a construção da unidade. “Assim que o município conseguir licitar, eles já estão preenchendo os documentos para abrir o processo de licitação, eu acredito que até o final de outubro nós autorizamos o município a licitar. O município licitando, o Fundo Estadual da Mulher, que está sob a nossa gestão, já vai fazer a destinação do recurso para que o dinheiro fique na conta do município. É uma obra que não tem só a previsão de acontecer, ela já tem a garantia do orçamento”, explica.
Veículos liberados para entidades de Irati
Outra ação é a liberação de automóveis para Irati. A Secretaria Municipal da Mulher, a Associação do Núcleo de Apoio ao Portador de Câncer de Irati (ANAPCI) e o Asilo Santa Rita receberão, cada um, um veículo. “São equipamentos que tentamos trazer para cá, justamente, pensando nessa lógica, para que os profissionais possam cada vez mais desempenhar bem o seu papel”, conta.
Leandre visitou Japão para conhecer ações realizadas com as pessoas idosas
A secretária esteve visitando o Japão por 12 dias para conhecer projetos voltados aos idosos que podem ser aplicados no estado. Um deles é uma clínica de reabilitação, focada na prevenção. “Eu estive na cidade de Shizuoka. É a cidade que tem o maior número de pessoas idosas do Japão e que tem as melhores tecnologias, de métodos de prevenção à demência ou de estabilização do processo da demência. Lá eu conheci dois equipamentos que, conversei inclusive com o prefeito Emiliano, que eu quero também colocar o Complexo de Irati, para ser um dos que vai receber essa tecnologia do Japão, desses métodos. Um é uma clínica de reabilitação. Ela não é uma clínica de reabilitação convencional, como temos aqui com os fisioterapeutas que fazem as sessões de fisioterapia. Ela é preventiva, é para você poder fortalecer a parte muscular da pessoa, é preservar as articulações e os métodos que eles usam é muito diferente dos nossos. Totalmente diferente. Então, é uma coisa nova que precisamos”, disse.
O projeto será desenvolvido em parceria com a Agência Japonesa de Desenvolvimento, conforme Leandre. “A nossa proposta com a Agência Japonesa de Desenvolvimento é poder trazer essa tecnologia, esse método aqui para o Paraná e implantar nos complexos. Eles, além de cuidar dessa parte de fortalecimento muscular, de massa muscular, porque isso tem muito a ver com a questão da capacidade funcional da pessoa, eles trabalham muito a questão da mobilidade funcional fina”, conta.
A secretária ainda conheceu alguns equipamentos que auxiliam o dia a dia de pessoas idosas com dificuldade com a mobilidade. Um deles foi um andador com rodinhas. “No Brasil, nós só vemos aqueles andadores fixo, que é difícil inclusive, que é ruim para pessoa sair de casa. Um andador com rodinha, que dá o apoio para pessoa se firmar, principalmente, aquelas pessoas que têm essa questão de mobilidade. Ele tem uma mochila na frente. Eu pensei: ‘Dá pra levar lá um lencinho, um lanchinho, alguma coisa’. Mas ele vira uma cadeira. E qual é o objetivo de virar uma cadeira? Se você perceber, qual é a maior dificuldade de as pessoas continuarem indo no mercado, continuarem indo no banco? Eles não conseguem andar mais do que 200, 300 metros sem ter um lugar para sentar e descansar um pouco. Aí ele tem autonomia, que é a cadeirinha dele”, explica.
A secretária ainda visitou uma clínica de apoio à demência que busca rastrear e diagnosticar precocemente a doença. “As famílias que estão enfrentando esse problema ou que suspeitam que algum familiar possa estar desenvolvendo um processo de demência, procura esse espaço e eles fazem uma bateria de testes. Não são exames clínicos, são testes. Eu fiz os testes. Essas pessoas, dependendo do patamar que dá o resultado, são encaminhadas para as clínicas específicas. São bem direcionados e conseguem pegar precocemente o problema para uma intervenção mais eficaz. Mas o que mais me chamou atenção foi justamente como eles apoiam os cuidadores dessas pessoas com demência”, conta.
O projeto no Japão auxilia os cuidadores com informações de como cuidar da pessoa idosa com demência. Uma das ações é usar a realidade virtual para mostrar como é a experiência de ter demência. A secretária contou como foi conhecer esse método. “Eu não entendia muito o que eles estavam falando, porque eles estavam falando em japonês. Mas eu via que uma pessoa me dava a mão e me convidava para fazer alguma coisa, que era para descer, mas eu estava vendo um prédio. Eu vi os carros lá embaixo, pequenininho. E a pessoa me dava a mão e eu dizia que eu não queria, porque eu ia cair do prédio. Quando na verdade, quando eu entendi a história, eles pararam, me explicaram e depois eu voltei para o aparelho, a pessoa veio na minha frente e colocava a mão no chão e dizia, pode vir, você vai descer do carro. E depois a realidade virtual demonstrava que você estava dentro do carro e tu estava resistindo descer do carro, porque na tua visão ali de demência, você estava pulando de um prédio. Então imagina, só a forma da pessoa se posicionar na frente, para pedir para uma pessoa descer do carro, se ela sabe disso, quanta sofrência menos para todo mundo. Então essas tecnologias, esses métodos, vamos trazer aqui para o Complexo Social Cidade do Idoso de Irati”, explica.
Uma das razões para escolher o Japão como destino, segundo Leandre, é a experiência do País com o cuidado de pessoas idosas. “É um país que tem mais de 30% de pessoas com mais de 65 anos, então, vocês imaginem o desafio que é, assim, um contingente muito grande da população, mas eles têm uma cultura diferente da nossa. Eles valorizam as pessoas idosas. Aqui é mais desafiador porque não tivemos a oportunidade de viver tanto tempo com pessoas idosas, é recente essa realidade”, conta.