Polícia desvenda sumiço de adolescentes em Cruz Machado

23 de agosto de 2016 às 10h41m

Jovem de 17 anos foi apreendido e confessou a morte de Camile Loures das Chagas, de 13 anos, e de Solange Vitek, de 16. As duas ossadas foram encontradas em julho e agosto

Da Redação, com informações dos portais Vvale, Cultura Sul FM e G1
Em coletiva de imprensa concedida na tarde de terça-feira (23), o delegado da 4ª Subdivisão Policial, Douglas Carlos de Possebom e Freitas, de União da Vitória, anunciou que foi desvendado o caso dos desaparecimentos de duas jovens da cidade de Cruz Machado. Conforme o delegado, faltam poucos elementos para concluir as investigações. Um adolescente de 17 anos, vizinho da primeira vítima, Camile Loures das Chagas, de 13 anos, confessou ter matado a menina e, meses depois, a segunda vítima, Solange Vitek, de 16 anos. Ele foi apreendido na segunda-feira (22).
De acordo com a polícia, o adolescente alegou ter matado Camile por gostar dela e não ser correspondido. Solange, no entanto, foi morta pelo fato de o rapaz suspeitar que ela soubesse do envolvimento dele com o crime. Os três moravam próximos. A Polícia Civil ainda não sabe se o garoto agiu sozinho ou se há o envolvimento de terceiros nas mortes das meninas.
Camile desapareceu há oito meses, no dia 15 de dezembro de 2015, enquanto retornava da visita à casa de uma amiga, que morava a aproximadamente 800 metros de sua casa. Solange desapareceu no dia 25 de março deste ano, perto das 6h40 da manhã, horário em que saía de casa para esperar o ônibus, num ponto que fica a cerca de 300 metros da casa. Como a jovem não voltou para casa, a mãe decidiu procurá-la na escola.
Os casos de desaparecimento voltaram à tona no início do mês de julho, quando um crânio, fragmentos de ossos e peças de roupas foram localizadas pela Polícia Civil de União da Vitória. Na ocasião, o delegado informou que a Polícia Civil foi acionada por um agricultor, que se deparou com a ossada em uma plantação de milho e ao lado de um rio, na Linha Encantilado, na área rural de Cruz Machado. O material escolar e as roupas encontradas próximas à ossada levavam a polícia a crer que pudessem ser de Solange Vitek, desaparecida em março, mas somente um exame de DNA elaborado pelo Instituto de Criminalística, em Curitiba, poderia certificar a identidade da ossada.
Cerca de um mês depois, no dia 11 de agosto, foi localizado um crânio humano cerca de dois quilômetros distante do ponto onde foi encontrada a primeira ossada. O material também foi encaminhado para o Instituto de Criminalística para a elaboração de um laudo.

Investigações

Na coletiva, o delegado Douglas Possebom refez um relato cronológico das etapas de investigação. Em 15 de dezembro, a menina Camile Loures Chagas, de 13 anos, desapareceu. Logo que prestada a queixa do desaparecimento, a Polícia Civil iniciou oitivas de testemunhas e fez interceptações telefônicas para apurar a eventual motivação do sumiço. Porém, nenhuma suspeita foi levantada. Em 25 de abril, ocorreu o desaparecimento de Solange e o mesmo procedimento de investigação foi adotado, sem que nenhum dado fosse encontrado.
No dia 7 de julho, foi encontrada parte de uma ossada humana. A 4ª Subdivisão Policial (SDP) mobilizou forças de segurança auxiliares, como o Batalhão de Engenharia do Exército, que enviou 40 homens; o Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, que enviou cães farejadores; Corpo de Bombeiros de União da Vitória; Polícia Militar dos municípios da circunvizinhança para fazer uma varredura pela região a fim de encontrar o restante da ossada. Nada mais foi localizado.
A segunda ossada foi achada no dia 11 de agosto. Ela estava mais completa, segundo o delegado. Os pertences próximos à ossada sugeriam à polícia que se tratava de Camile, assim como o material localizado ao lado dos primeiros fragmentos ósseos encontrados um mês antes indicavam que a ossada seria de Solange.
O passo seguinte foi reunir o material de investigação e convocar novas oitivas com os moradores das proximidades tanto do local de desaparecimento das meninas como do local onde as ossadas foram encontradas.
“Numa abordagem normal, para reavaliar a oitiva que já tinha sido [feita], ele já tinha prestado declarações, ele caiu em contradição e os investigadores começaram a indagá-lo, até que ele acabou confessando a autoria da morte das duas adolescentes”, revela o delegado Possebom, sobre o jovem apreendido. “Na sua declaração, ele relatou detalhes que só quem estivesse no local [do crime] poderia saber”, acrescentou.
Segundo a Polícia Civil, o adolescente de 17 anos morava quase defronte à casa de Camile e ambos frequentavam, até o final do ano passado, a mesma escola e utilizavam o mesmo ônibus escolar. O adolescente parou de estudar em outubro. Ele conhecia a rotina diária das estudantes, também de acordo com a polícia.
De acordo com o delegado Rafael dos Santos Pereira, também da 4ª SDP, o assassinato de Camile foi premeditado. Diante da não-correspondência do sentimento que o rapaz alegava nutrir pela menina, ele se revoltou e começou a planejar sua morte. Ele pretendia abordá-la pela manhã, no horário em que ela costumava ir para a escola.
O adolescente viu Camile na varanda da casa de uma amiga, no dia de seu desaparecimento, conforme o delegado Rafael. “Ele sabia que havia um único caminho, mais curto e pouco frequentado, e seria mais fácil cometer o crime ali. Viu a oportunidade e mudou os planos dele”, disse.
O delegado relatou, também, que o jovem apreendido alegou que esperou por Camile, escondido num matagal nesse caminho que a menina iria percorrer até sua casa, por volta das 18h30 de 15 de dezembro. Ele estava munido de uma faca e a forçou a entrar no matagal, sob ameaça de morte, e a encaminhou até um local de difícil acesso, a fim de dificultar a posterior localização do cadáver. O adolescente nega que tenha praticado qualquer ato de abuso sexual contra as duas adolescentes.
Segundo o delegado Possebom, perto da ossada das duas adolescentes foram encontradas duas calças viradas pelo avesso, o que deduz que foram retiradas dos corpos antes de sua execução. No caso de Solange, a calça foi encontrada com um nó nas pernas, pois foi o meio empregado pelo suspeito para o estrangulamento da vítima.
Camile, segundo o depoimento do adolescente, também foi morta estrangulada, e o suspeito usou os próprios braços. A mesma faca foi usada para intimidar as duas garotas, mas elas não teriam sofrido golpes de faca, de acordo com o delegado.
Possebom detalhou que ainda falta a Polícia Civil apurar se há envolvimento de terceiros na execução das meninas. A polícia já tem certeza de que o rapaz as acompanhou, em vida, dos locais de abordagem até os locais onde foram mortas. Segundo o delegado, a distância varia entre 30 a 40 minutos de caminhada entre o local de abordagem e a cena dos crimes. A polícia deve fazer novos levantamentos nos locais dos crimes. Detalhes como a indicação de ter atirado os celulares das garotas evidenciam a participação do rapaz nos crimes. No caso de Solange, ele removeu apenas a bateria do celular, que foi encontrada próximo à ossada.
Apesar da confissão do adolescente, as investigações prosseguem. “É natural que ele vai nos fornecer muitos detalhes que apenas quem esteve no local saberia. Isso confirma, sem sombra de dúvidas, a participação dele. Mas pode estar nos ocultando detalhes mais importantes de uma possível participação de terceiros e detalhes da execução do crime, que nós vamos tentar, na medida do possível, confrontar com provas técnicas, com perícia, com reconstituição dos fatos, com novas buscas no local, com exames de DNA para eliminar todas as dúvidas sobre o caso”, esclarece o delegado Rafael.
Por ser menor de idade, o adolescente foi apresentado nesta terça (23) ao Ministério Público e encaminhado ao Juizado da Infância e da Juventude, que aplicaram medidas administrativas. O jovem está internado, provisoriamente, na Delegacia de União da Vitória para que a polícia prossiga com a investigação. Ele deverá ser encaminhado a um Centro de Socioeducação (Cense) para o cumprimento das medidas socioeducativas, por até 45 dias, período durante o qual a Polícia Civil espera levantar o máximo possível de provas e encaminhar ao Judiciário para a aplicação da pena definitiva sobre o suspeito que confessou o crime. Para adolescentes, a pena máxima é de internação por três anos.

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