Projeto desenvolvido pelo artesão iratiense Braulio Zarpellon Junior ensina estudantes do Colégio Florestal a criar peças artesanais em madeira; previsão é que as peças produzidas sejam expostas na Casa de Cultura no próximo ano/Texto de Karin Franco com entrevista de Rodrigo Zub e Juarez Oliveira

Resumo
- O artesão iratiense Braulio Zarpellon Junior está realizando oficinas no Colégio Florestal de Irati com objetivo de ensinar técnicas de artesanato em madeira.
- O projeto se chama “Intarsia em Foco: Desenvolvimento Gradual da Técnica com Ênfase na Segmentação da Madeira”.
- O projeto está sendo realizado com recursos da lei federal Aldir Blanc.
Alunos do Colégio Florestal de Irati estão tendo a oportunidade de aprender técnicas de artesanato em madeira por meio do projeto “Intarsia em Foco: Desenvolvimento Gradual da Técnica com Ênfase na Segmentação da Madeira”, desenvolvido pelo artesão iratiense Braulio Zarpellon Junior. O projeto é um dos aprovados no edital da lei federal Aldir Blanc.
Em entrevista à Najuá, o artesão falou quais são os objetivos do projeto. “Não tenho a pretensão de que vai sair fazendo alguma coisa já, porque são adolescentes, crianças entrando na adolescência. Mas muito provavelmente lá no futuro, lá na frente, eles vão lembrar: ‘Poxa, eu fiz um curso. Gostei’”, afirma Braulio.
O projeto será aplicado em três turmas com dez estudantes até o próximo ano. Neste semestre, o trabalho é realizado com duas turmas e no próximo ano, com apenas uma. A primeira aula prática aconteceu no dia 20 de julho e despertou a curiosidade dos alunos, conforme Braulio. “Me parece que os alunos adoraram esse contato com a madeira”, comemora o artesão.
Braulio afirmou que a escolha do Colégio Florestal levou em conta o fato da instituição possuir uma oficina com maquinário próprio para o trabalho com a madeira. Esse tipo de trabalho mais artesanal tem sido um desafio para os estudantes, mas o artesão destaca que a expectativa é boa para o resultado final das peças produzidas. “Não é uma coisa muito fácil, porque demanda paciência e também uma certa força para segurar a madeira quando ela está sendo serrada. Mas, o resultado final compensa tudo isso”, comenta.
O projeto prevê que os alunos produzam peças até o final das aulas, sendo um passarinho, uma araucária, uma paisagem paranaense ou uma flor. A intenção é que as peças produzidas pelos estudantes possam ser expostas na Casa da Cultura, em Irati.
Nas aulas, os estudantes recebem uma apostila com gabaritos, como são conhecidos os moldes que ajudam a construir as peças. Na apostila, além de dicas para fazer o trabalho, o conteúdo traz ensinamentos sobre o entalhe na madeira e a importância do design. “Nós estamos nessa aula, fazendo linhas retas, cortando linhas retas, cortando linhas curvas, cortando um círculo, um quadrado e cortando dentro. Como é que é o corte desse coração, por exemplo? Nós cortamos externamente e internamente. Mas para fazer o corte interno, como é que você vai introduzir a serra ali? Você tem que fazer um furo. Destacar a serra da parte de cima do braço da máquina, introduzir a serra na madeira, firmar de novo e serrar. Tem alunos que se destacam fazendo isso aí e gostaram muito de fazer”, conta o artesão.
A técnica ensinada é conhecida como Intársia, que possibilita a produção de peças em madeira ornamentadas. Nesta técnica, as peças são encaixadas possibilitando a produção de uma imagem similar à de um mosaico com a ilusão de profundidade. A técnica foi originada no antigo Egito, conforme o artesão iratiense. “Muitos de nós não sabem, mas os sarcófagos, os faraós, eram de madeira. Muito difícil saberem disso. Eram feitos em camadas. Como é que ia fazer uma camada no nariz? Ia fazendo pouco a pouco, e aquilo lá originou-se, então, no Egito Antigo, a Intársia”, explica.
O uso dessa técnica teve um grande auge durante a Renascença, um movimento cultural ocorrido, principalmente na Itália, entre os séculos 14 e 16, que marcou a transição da Idade Média para a Idade Moderna na Europa. Braulio falou sobre esse período. “Através dos grandes artistas, Jacopo da Verona e Giovanni De Luca, que mostraram obras incríveis. Teve uma época muito boa na época da Renascença, de decorações de palácios, de igrejas, e assim por diante”, conta Braulio.
A técnica teve um breve declínio, mas voltou a ser feita após o avanço das máquinas usadas para o trabalho com a madeira. “Você imagina que, para você serrar uma peça dessas, eu utilizo a serra-tico-tico da bancada. Mas imagina você fazer isso na mão? Não seria muito fácil, não seria nada fácil. E eles faziam grandes painéis. Demandava muito tempo. É claro que sofreu um declínio, mas, a partir do surgimento das serras elétricas, começou a ressurgir novamente”, explica.
Atualmente, a técnica é desenvolvida, principalmente, por artesãos nos países do norte da Europa, nos Estados Unidos e Canadá. O contato de Braulio com a técnica aconteceu após realizar um curso de marcenaria. Como estava aposentado, encontrou um novo hobby no trabalho com a madeira. “Eu tive contato com essa técnica, por acaso. Eu já tinha me aposentado e um amigo meu me falou: ‘Você conhece, já ouviu falar do Intársia?’. Eu falei: ‘Não, nunca ouvi’. Daí, eu comecei a me interessar, comecei a pesquisar no YouTube, pesquisar em sites, e, acabei encontrando uma maneira de me expressar, de fazer algumas coisas, porque eu sempre gostei muito de mexer com madeira”, disse.


Braulio trabalha produzindo peças com a técnica há nove anos e conta que o começo teve desafios, como encontrar as ferramentas corretas para o trabalho. “Eu demorei um tempão, porque até você pesquisar, você desenvolver ferramentas, que no mercado brasileiro não existem. O que eu tinha era uma serra tico-tico, mas eu precisava de uma lixadeira boa, lixadeira de rolo, que não existe. Eu precisava de uma lixadeira para afinar as madeiras, uma lixadeira de rolo maior, que foi feito num marceneiro, que eu consegui fazer. O desenvolvimento das ferramentas aqui no Brasil, porque ferramentas aqui no Brasil não existem. Nos países de origem, na Itália, que são um destaque hoje, existem ferramentas próprias para isso. Mas só que se você for importar, são caríssimas. O que demorou foi desenvolver as ferramentas, porque no começo eu comecei lixando as peças na mão. Claro que eu não conseguia os efeitos que tinha que fazer aqui. Não seria fácil. A partir do momento que você tem as ferramentas certas, você consegue fazer coisas maravilhosas”, disse.
A principal madeira usada no trabalho é o pinus. “As madeiras macias são mais fáceis de fazer. O pinus é uma madeira excelente pra você trabalhar, mas também tem veios, tem colorações muito lindas. Tem aqueles vermelhos, aqueles veios, direcionamento dos veios, então é muito bom trabalhar com pinus. É uma madeira abundante na região”, explica.
O trabalho artesanal ainda inclui madeiras que são recicladas. “Outras madeiras que eu utilizo, todas de reaproveitamento de marcenarias, de reaproveitamento de móveis antigos, de demolição de casas, são imbuia, uma canjarana, que eu achei jogada no lixo, também cedrinho, que não é protegido, cedro, cadeira amarela, então, diversas madeiras protegidas, mas todas com o cuidado máximo de reaproveitá-las. Eram madeiras jogadas, que iam para queimar, provavelmente iam para o fogão a lenha, mas eu resgatava, eu sempre resgatei e fiz esse tipo de trabalho”, conta.
O artesão trabalha somente com encomendas. O seu trabalho em madeira pode ser conferido nas redes sociais em sua página no Facebook BraZa – Arte em Madeira ou em seu perfil no Instagram (@zarpellonjr).