Mercado de exportação de tabaco pode sofrer retração na próxima safra

16 de março de 2015 às 11h00m

Além de o principal comprador, a China, possuir grande estoque de cigarros e ser responsável pela metade da produção de tabaco no mundo, crescimento do contrabando é visto como ameaça

Edilson Kernicki, com reportagem de Rodrigo Zub

O representante local da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP) e presidente do Sindicato Rural de Irati, Mesaque Kecot Veres, participou há alguns dias da rodada de negociações sobre o preço do fumo. O encontro ocorreu no Rio Grande do Sul e envolveu diversas entidades, como a FAEP e as outras duas Federações Agrícolas do Sul do Brasil, as três federações dos trabalhadores e a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra).

A reunião resultou na assinatura do protocolo de aumento no preço do fumo para três empresas – Souza Cruz, Phillip Morris e CTA – que aumentaram a tabela geral, em 6,4%, o que acompanha a diferença no custo de produção e resguarda uma margem de lucro para o produtor. Com as demais empresas, as negociações não avançaram. Segundo Mesaque, os produtores voltaram da reunião apreensivos com o cenário econômico para a próxima safra. Ele analisa como sólida a relação do produtor de tabaco com as empresas fabricantes de cigarros – Souza Cruz, JTI e Phillip Morris. Entre as que não produzem cigarros, somente a CTA assinou o protocolo que aumenta a tabela de comercialização do tabaco.

“Algumas empresas aumentaram por conta, sem a negociação, as classes T e D, mas não aumentaram as classes mais baixas, C e X, porque vendem para a China, que não compram esse tipo de tabaco. Algumas dessas empresas estipulam comprar apenas 12% de baixeiro, sem comprar um volume maior”, conta o presidente do Sindicato Rural de Irati. A pouca demanda leva os produtores a cogitar jogar fora as folhas do fumo baixeiro na próxima safra, fato inédito.            
Outra perspectiva negativa que interfere diretamente no dia a dia dos produtores de tabaco, conforme o representante da FAEP. Em nível mundial vem se reduzindo significativamente o cigarro legal (ou seja, não contrabandeado). Ao mesmo tempo, há uma grande pressão regulatória, por parte dos governos, sobre a produção legalizada do cigarro. “Temos, no Brasil, um custo muito alto de produção, o que afeta a concorrência no mercado internacional, principalmente com a África, pois 85% do cigarro brasileiro é exportado”, observa.

Mesaque aponta, ainda, que a exportação de tabaco para a China pode ser encarada de duas formas distintas: como oportunidade de negócio ou como risco de o produtor brasileiro sofrer com a especulação. Ele atribui esse caráter especulativo ao fato de que a China importa ao tabaco brasileiro a preços baixos e, em muitos casos, quer derrubar esse valor mais ainda. A razão para isso decorreria do fato de que, supostamente, a China possui um estoque de cigarros suficientes para mais um ou dois anos. “A China também não compra aquele fumo baixeiro. O fumo é dividido em quatro classes. A parte de baixo, a China não compra porque ela produz”, diz.

Além do grande estoque de cigarros, a China produz, sozinha, o equivalente ao que o resto do mundo colhe em tabaco, o que interfere no mercado de exportação, uma vez que o país asiático é um dos principais compradores dessa matéria-prima. A China colhe, anualmente, em torno de 2 milhões de toneladas de tabaco e, neste ano, já se projeta que essa produção se reduza em 10%, chegando a 1,8 milhão de toneladas.

Outro fator que gera preocupação no mercado fumageiro é o contrabando de cigarros. Segundo o representante da FAEP, até 54% do produto comercializado hoje no Paraná é contrabandeado.

O Sindicato Rural recomenda cautela ao produtor de tabaco e que fique atento para qual empresa está vendendo e que fique atento para a garantia de que vai receber, pois as empresas estariam também enfrentando restrições econômicas. “Até o momento, foram comercializados 17% da safra; ainda está no início. Se for necessário, até medidas judiciais poderão ser tomadas para garantir o equilíbrio na relação entre produtor e empresa e para que o produtor não se sinta prejudicado”, observa Mesaque.

O comércio paralelo informal do cigarro – ou melhor, dizendo, o contrabando – representa uma grande ameaça para o mercado tabagista, na visão do representante da FAEP. “Todo dia vemos apreensão. Por exemplo, o Paraguai, que é um grande produtor de cigarros, principalmente de fumo cultivado na Índia. O consumo de cigarro ilegal (de contrabando) se mantém e, muitas vezes, até aumenta. O do cigarro legal é que diminui e tem que se trabalhar com esse cenário: uma estabilização de volume, com tendência de diminuição”, analisa.

Mesaque acredita que o governo federal deveria fazer investimentos mais incisivos no combate ao contrabando de cigarros. “Não é apenas preço, mas como esse cigarro está sendo produzido. Há a diferença de que no cigarro legal existe a transparência da produção. O cigarro nacional só é produzido de acordo com as normas estabelecidas pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. Já no cigarro ilegal, em algumas análises feitas, existe produção com falta de higiene e o questionamento sobre como esse tabaco foi produzido, sem responsabilidade social, sem tributação; além do perigo de ter sido encontradas misturas como resíduos de cocaína, fezes de animais e até de crack”, alerta.

Próxima safra


O representante da FAEP vislumbra um cenário pouco animador para quem planta tabaco na próxima safra. O Brasil produz em torno de 620 mil toneladas de fumo virgínia e especialistas já recomendam uma diminuição para 500 mil, o que representa menos 19,35%. Da mesma forma, se fala numa redução drástica na produção do fumo burley – espécie que não é tão cultivada no Centro-Sul e que tem maior produção em Ipiranga e no Sudoeste do Paraná.

Na visão dele, empresas como a Souza Cruz, Phillip Morris, JTI e CTA fogem do caráter especulativo, pois se demonstraram, ao assinarem o protocolo, que se preocupam com a sustentabilidade e a renda do produtor.

Mesaque salienta que a produção de tabaco ainda representa a atividade que garante maior renda em pequenos espaços de cultivo, uma vez que se caracteriza como cultura de pequenos e médios produtores.

“Em relação às empresas que não assinaram o protocolo, são empresas que não produzem cigarro. O agricultor deve ficar muito atento, no próximo ano, a com quem ele vai assinar o contrato de produção, para que não se sinta prejudicado”, recomenda.

Diversificação da produção


O Sindicato Rural de Irati, em atenção ao mercado tabagista dos últimos anos, observa a necessidade de que os produtores passem a diversificar a cultura em suas propriedades. “Porém, nesse nível de renda, são poucas as perspectivas, não por falta de opções, mas por falta de infraestrutura necessária, como no exemplo da fruticultura”, avalia.

Segundo Mesaque, a fruticultura nessas propriedades, há algum tempo, vem sendo trabalhada em áreas muito pequenas. O presidente do Sindicato opina que o governo deveria investir mais em uma infraestrutura que permita a armazenagem e conservação de frutas até o seu transporte para comercialização, como mecanismo de estímulo à fruticultura.

“Para o pequeno produtor, é uma grande dificuldade. No caso de sistema integrado, seja de tabaco, de aves ou de leite, há uma infraestrutura, uma parceria dele com uma empresa, que disponibiliza a assistência técnica, o transporte desse produto e toda a compra, o que nem sempre acontece nas demais alternativas”, compara. 

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