Irati foi um dos 71 municípios do Estado que aderiram à campanha Paraná Unido Contra o Feminicídio. Movimento será realizado no Dia Estadual de Combate ao Feminícidio/Texto de Rodrigo Zub e Letícia Torres do Hoje Centro-Sul

A 1ª Caminhada do Meio-Dia que abordará o tema violência contra a mulher acontecerá em Irati, no sábado. O ponto de encontro será a rua da Cidadania, a partir das 11h30. De lá, os participantes seguem com destino à Praça da Bandeira, às 12 h. Em seguida, o trajeto passa em frente à loja Afubra e o restaurante Italiano, depois em frente à Câmara Municipal, supermercado G-Center, rotatória do G-Center até ser finalizada novamente na Praça da Bandeira, às 12h40.
A ação faz parte da campanha Paraná Unido Contra o Feminicídio, que será realizada em mais de 70 municípios do Estado e está sendo promovida pela secretaria da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa. Em Curitiba, o movimento terá a presença da ex-modelo e ativista no combate à violência contra as mulheres, Luiza Brunet.
O dia 22 de julho (sábado) é o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio. Ele foi criado em referência à morte da advogada Tatiane Spitzner, em 2018 em Guarapuava. A lei determina que é dever do Poder Público promover debates, seminários e outros eventos relacionados ao tema.
Além de Irati, outros municípios da região que já anunciaram que vão aderir ao movimento são Prudentópolis (concentração na Praça dos Imigrantes ao lado da rodoviária), Guamiranga (sem um ponto informado), Rebouças (concentração na Praça dos Ferroviários), Inácio Martins (na Praça Municipal, na rua 7 de Setembro), Fernandes Pinheiro (na Praça Central), Mallet (na Praça dos Imigrantes) e São Mateus do Sul (rua do Matte). A secretária da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa Leandre Dal Ponte, pede aos participantes da Caminhada do Meio-Dia que usem roupa branca em demonstração de paz e respeito à vida. “Vamos fazer uma grande mobilização na maioria das cidades do Paraná em memória das vítimas de feminicídio, em solidariedade aos seus familiares, pelo fim da violência e pela vida das mulheres”, afirmou a secretária.
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Leandre também explicou o motivo da caminhada começar às 12 h. “Onde estariam essas mulheres vítimas do feminicídio num sábado se estivessem vivas? A grande maioria, junto a seus familiares, ao redor de uma mesa para fazerem uma refeição juntos. Hoje elas não estão mais como eles, sua ausência é sentida todos os dias e sua presença jamais esquecida”, complementou a secretária.
Em vídeo divulgado pela secretaria de Comunicação da Prefeitura de Irati, a vice-prefeita Ieda Waydzik, repassou dados que mostram que os crimes contra a mulher são comuns no País. “Como é sabido no Brasil temos muitos e muitos feminicídios. Uma mulher morre a cada seis horas. Somente trazendo eventos como esse, fazendo manifestações pela honra da alma dessas mulheres é que nós conseguiremos mudar essa nossa cultura”, salienta Ieda.
A secretária de Assistência Social de Irati, Sybil Dietrich, disse que todas as formas de violência contra as mulheres devem ser combatidas. “Essa triste realidade só será possível de ser mudada com a nossa união. Venha participar, é no próximo sábado, ao meio dia, a concentração é na Rua da Cidadania com destino à Praça da Bandeira. Faça a sua parte. É o Paraná Unido contra o feminicídio”, disse a secretária.

Ieda reforçou o convite para toda a comunidade participar da caminhada, independentemente da idade ou sexo, seja homem ou mulher. “Num sábado ao meio-dia essas mulheres estariam em casa com seus filhos, com sua família, fazendo o seu almoço e infelizmente não estão mais. Nós precisamos mudar essa realidade. Junto com a deputada Leandre, secretária de estado da Secretaria da Mulher, Igualdade Racial e do Idoso, nós queremos fazer um trabalho muito forte para mudar essa nossa cultura”, enfatiza a vice-prefeita.
Dados de violência contra mulher em Irati: Segundo dados do Fórum da Comarca de Irati, 280 medidas protetivas foram registradas em 2021. No ano passado, foram expedidas 300 medidas protetivas. Já neste ano, 178 medidas protetivas foram registradas até o mês de junho. A medida protetiva tem o objetivo de proteger a pessoa em situação de risco, independentemente de raça, classe social, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, religião e idade.
Já o Centro de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) de Irati possui dados do Censo do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que mostram a quantidade de mulheres adultas de 18 a 59 anos, que foram vítimas de violência física, psicológica e sexual na família, nos últimos dez anos. Os dados mostram que no ano de 2012, o número de registros foi de 169. Em 2013, 174 mulheres registraram situações de violência em Irati. Nos anos seguintes, a quantidade de registros se manteve abaixo de 100, com 77 em 2014, 82 em 2015 e 60 em 2016. Em 2017, o número de registros de violência contra a mulher subiu para 156. Em 2018, a quantidade de registros reduziu para 47. Depois, o número voltou a subir acima de 200 registros por ano. Em 2019 foram 204 casos. Em 2020, a quantidade chegou a 264. No ano de 2021, o número de registros foi o maior do período analisado, com 284. Em 2022, a quantidade de registros caiu para 111. Já neste ano foram registradas 30 situações de violência contra a mulher nos seis primeiros meses do ano em Irati.
Vale salientar que os dados contemplam apenas as pessoas que formalizam a denúncia e acionam os órgãos de segurança. Em muitos casos, a vítima não realiza a denúncia por medo ou outros fatores.
Históricos de crimes contra a vida de mulheres em Irati: Nos últimos anos Irati registrou crimes contra mulheres que chocaram a região. Todos foram cometidos pelos companheiros ou ex-conviventes das vítimas.

No dia 10 de junho deste ano, Mirela Maiara Ewerling Luis, 26 anos, foi morta com golpes de faca na frente do filho de dois anos em Irati. O crime ocorreu durante uma confraternização, após o companheiro da vítima, de 28 anos, ter uma crise de ciúmes e atacá-la. Ele foi contido pelas pessoas que estavam no local, mas foi à cozinha, pegou uma faca e desferiu golpes contra Mirela. A mulher foi encontrada caída em sua casa com perfurações no corpo. Ela não resistiu aos ferimentos e morreu no local. O autor das facadas fugiu, mas foi preso pela Polícia Militar dois dias após o crime.
A vítima já havia solicitado medidas protetivas anteriormente, mas não prorrogou o pedido e foi assassinada exatamente um ano após a revogação. O casal estava junto há cerca de três anos. De acordo com o Delegado de Irati, Diego Troncha, o homem foi indiciado e denunciado, e está aguardando júri.
No dia 29 de março de 2022, Veridiana dos Anjos, de 37 anos, foi assassinada com golpes de faca pelo ex-namorado na Rua Dona Noca, no centro de Irati. A vítima foi abordada pelo agressor após sair do trabalho. Ela foi atingida com seis golpes de faca. Um bombeiro que estava passando pelo local deteve o autor do crime até a chegada da PM. O homem foi preso em flagrante. Ele já havia sido preso em flagrante no ano anterior por ameaçar a ex-namorada. Uma medida protetiva foi solicitada após a prisão. No entanto, não houve registro posterior de violação da medida protetiva ou novas ameaças relatadas à polícia até o dia em que ocorreu o crime. Segundo o delegado Diego, o autor está aguardando júri.
No dia 8 de março 2022 (Dia Internacional da Mulher) ocorreu uma tentativa de feminicídio em que um servidor da Unicentro esfaqueou e atropelou sua ex-companheira, de 43 anos, que também trabalha na universidade. A vítima foi socorrida em estado grave e conseguiu se recuperar após permanecer alguns dias internada. Já o autor morreu após se envolver em um acidente de trânsito na BR-153, sentido Rebouças. Ele invadiu a pista contrária e colidiu frontalmente contra um caminhão.
Ivanilda Kanarski, de 30 anos, foi morta a tiros no dia 26 de julho de 2018, cinco dias após a morte da advogada Tatiane Spitzner, em Guarapuava. O crime ocorreu no Parque Aquático de Irati e foi presenciado pelos dois filhos do casal. Um policial, que estava em seu horário de descanso, ouviu os disparos e conseguiu deter o autor dos tiros, que havia sido imobilizado pelo irmão da vítima. Ivanilda chegou a ser socorrida pelo Corpo de Bombeiros, mas morreu ao dar entrada na Santa Casa de Irati.
Em júri popular concluído no dia 10 de dezembro de 2020, no Fórum de Irati, o réu João Fernando Nedopetalski foi condenado a 24 anos e 4 meses de prisão pela morte de sua esposa e pela tentativa de homicídio de seu cunhado, Romildo Kanarski. O júri, que teve duração de dois dias, contou com sete jurados, sendo seis mulheres e um homem.
O réu foi considerado culpado por homicídio qualificado por dificultar a defesa da vítima, além de duas qualificadoras adicionais, sendo uma delas que o crime foi cometido na presença dos filhos do réu e da vítima. A outra situação apontada é que a vítima deixou órfãos um filho e uma filha, que na época tinham 12 e 7 anos de idade, respectivamente. No entanto, o júri não reconheceu o caso como feminicídio, o que gerou divergências na pena aplicada.
Já em setembro de 2017 Sandra Mara Meira, na época com 35 anos, foi encontrada morta próximo à cachoeira do Fillus, em Irati. Seu ex-marido confessou o crime em Palmeira após tentar cometer suicídio.
O que é o feminicídio? O feminicídio é o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher, seja no ambiente doméstico ou familiar, ou ainda motivado pelo menosprezo, discriminação ou ódio, além da falsa ideia de que a mulher é propriedade do homem. Quando uma mulher morre brutalmente, toda a sociedade é atingida. O feminicídio afeta a vida dos filhos, pais, irmãos, amigos e colegas de trabalho.
Os casos de violência contra a mulher podem ser denunciados no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS), unidades básicas de saúde, Procuradoria da Mulher nas Câmaras Municipais ou prefeituras. Outros canais de denúncia são os disques 180, número da Central de Atendimento à Mulher, 181 para denúncia de violência contra a mulher e 190 na Polícia Militar. Os casos também podem ser informados no site da Polícia Civil, por meio de um Boletim de Ocorrência Eletrônico. Para realizar esse procedimento basta clicar na aba violência doméstica e familiar (Lei Maria da Penha).