Em ofício, SEED convoca professores para retomarem as atividades na segunda-feira, 2. No entanto, APP-Sindicato mantém greve e diz que as escolas não estão preparadas para receber os alunos já na próxima semana
Rodrigo Zub
{block} “Agora não tem mais conversa”, diz Sciarra
O secretário-chefe da Casa Civil, Eduardo Sciarra (PSD), confirmou ontem que o governo do estado encerrou definitivamente as negociações com os professores e servidores da rede estadual de ensino. Para ele, o sindicato da categoria foi intransigente ao não querer pôr fim à greve, mesmo após as partes terem chegado a um suposto acordo na última quarta-feira.
“A retomada das negociações está totalmente descartada. Não vamos nem mais responder [ao sindicato]. Agora não tem mais conversa”, afirmou Sciarra. “Não vamos recuar daquilo que nos comprometemos, mas também não vamos avançar mais”, ratificou.
Horas antes, o comando de greve havia publicado uma nota em que exigia que o governo retomasse as negociações. Segundo o comunicado, “as propostas apresentadas são insuficientes para reverter o caos instalado no ‘pior início do ano letivo’ de nossa história”. A APP-Sindicato ressalta que as reivindicações da categoria não foram integralmente acatadas, principalmente as que dizem respeito a aspectos financeiros.
Fizemos uma videoconferência com os chefes de núcleo. Todos estão aptos para entrar em aula já na segunda-feira. Evidentemente que não teremos adesão de 100%, porque os grevistas estão espalhando que não vai ter aula. Mas temos plenas condições”, garantiu Sciarra.
Outro lado
A APP-Sindicato, que representa os educadores estaduais, pede a ilegalidade da greve. A informação foi mal recebida pelos sindicalistas. “A gente avalia que optar pelo caminho de judicializar é algo para acirrar o descontentamento e a desconfiança da categoria para com o governo. Entrar com ação é jogar um galão de gasolina sobre um incêndio”, disse o presidente da entidade, professor Hermes Silva Leão.
*Gazeta do Povo
{/block} Assim como o governo federal que solicitou intervenção na justiça para impedir os bloqueios de rodovias no País, o governo do estado também pretende colocar fim a greve dos professores da mesma forma. No fim da tarde de ontem, 27, foi protocolado um pedido de liminar no Tribunal de Justiça do Paraná (TJ/PR) para que a paralisação dos profissionais da educação seja decretada ilegal. A intenção do Executivo é que o pedido seja aceito ainda durante o fim de semana e, assim, forçar o início do ano letivo de 2015 na segunda-feira, dia 2 de março.
A greve já dura 19 dias. O reinício das aulas estava marcado para ocorrer no dia 9 de fevereiro. Em função do horário em que foi protocolada, a liminar só deve ser despachada no Tribunal de Justiça neste sábado, 28, de acordo com o próprio governo. O comando de greve, no entanto, se reuniu nesta quinta-feira, 26, e agendou a assembleia estadual da categoria, que pode definir o fim da greve, apenas para a próxima quarta-feira, 4, em Curitiba. A medida contraria a expectativa do governo do estado, que afirma ter atendido todas as reivindicações dos professores, de forma que não há motivo para que a greve prossiga.
Na manhã de ontem, 27, a Secretaria de Estado da Educação (SEED) já havia encaminhado um ofício circular convocando alunos, professores e diretores de escolas para que retomem as atividades a partir de segunda-feira, 2.”É necessário ainda informar, aos pais e alunos da retomada das aulas de modo que não haja mais prejuízos ao calendário escolar. Lembramos também, que o governo do Paraná atendeu à todas as reivindicações colocadas na pauta de negociação pelos representantes da categoria, não justificando mais o prolongamento da paralisação”, diz um trecho do ofício, que também foi encaminhado para a imprensa.
Em resposta ao ofício, a APP-Sindicato de Irati encaminhou um comunicado aos profissionais dos 11 municípios que fazem parte do núcleo de Irati. O documento diz que “nenhum órgão governamental tem o poder de fazer qualquer deliberação sobre a categoria (professores e funcionários). Sendo assim, a convocação da chefia do Núcleo Regional de Educação para que os educadores retornem as escolas no dia 02, não tem a menor validade. A retomada ou não das atividades do ano letivo, só serão definidas em Assembleia Estadual dos educadores marcada para dia 04 de março de 2015, quarta feira em Curitiba. Diante do exposto, comunicamos que a categoria continua unida e o movimento tem amparo legal na Constituição Federal (1988) em seu artigo 9º, sendo assim, qualquer ameaça ou coação por parte do governo deve ser ignorada”.
Professores não vão retomar atividades, diz APP-Sindicato de Irati
A professora Arlete Menezes, que integra a diretoria da APP-Sindicato de Irati, diz que representantes dos 11 municípios da região se reuniram na quinta-feira, 26, para avaliar as propostas apresentadas na mesa de negociações com o governo do estado. Arlete disse com convicção que nenhum professor ou funcionário estará nas salas de aula na segunda-feira, 2.
“O governo insiste em dizer que as escolas estão preparadas para retornar as aulas. Mas isso não foi verificado ontem [quinta] na nossa avaliação, inclusive com diretores das escolas, eles afirmavam que se voltassem às aulas na segunda-feira, não teriam sequer merenda para começar o ano letivo”, afirmou Arlete.
Ela comenta que na visão dos educadores o governo estadual apresentou propostas vagas que não atendem os anseios da categoria. “O que nós temos é uma promessa muito vaga do governo de que vai contratar novos funcionários sem dizer quando e quantos”.
APP alega falta de estrutura nas escolas
Arlete também relata que as escolas não estariam preparadas para receber os alunos, pois não dispõe de número suficiente de pedagogos e professores. Outra reivindicação da categoria se refere ao porte das escolas e a reabertura de turmas. Segundo Arlete, mais de 2 mil turmas foram fechadas no Paraná. Mesmo assim, ela salienta de que não há garantias de que a SEED irá reabrir as turmas. “Após o retorno das aulas, a direção das escolas terá que fazer um pedido para que turmas sejam reabertas para a SEED, que irá analisar ainda se essas turmas poderão ser reabertas”.
A professora que integra a diretoria da APP/Sindicato de Irati ainda relata que o número elevado de alunos prejudica o andamento das atividades e o aprendizado.
“Nós não temos condições de retornar com 52 alunos numa sala de aula, por exemplo. É o caso de Irati. Temos turmas no Paraná com mais de 70 alunos. Nós não vamos retornar as escolas enquanto o governo não rodar o novo porte e reorganizar as novas turmas. Não adianta dizer que atendeu aos pedidos, sendo que fez propostas foram insuficientes”, finalizou Arlete.
Posicionamento do chefe do Núcleo Regional de Educação
Procurado para comentar sobre a decisão dos professores de não atenderem a convocação para retomar as aulas na segunda-feira, 2, o chefe do Núcleo Regional de Educação, professor Cleto Castagnoli, diz que o objetivo do governo estadual é não prejudicar o andamento do calendário escolar, já que os alunos precisam ter 200 dias letivos e 800 horas/aula por ano.
“Foi repassado à direção das escolas e os pais e alunos para que sejam retomadas as aulas independente de negociações que a APP venha a ter com o governo. Porque entende- se que todas as reivindicações feitas pela categoria foram atendidas. Não existe mais motivo para que se prolongue essa paralisação. Nós já estamos com o nosso calendário prejudicado. Nós temos ainda que contar com a possibilidade de chuvas e de que o transporte não possa funcionar como em muitos municípios as secretarias municipais tem nos ligado que estão ficando sem combustível para fazer linhas e atender demanda de alunos, em virtude da greve dos caminhoneiros”, comentou Cleto.
Cleto descarta falta de merenda escolar nas escolas
Sobre a falta de infraestrutura das escolas, o chefe do Núcleo Regional de Educação diz que essa reivindicação da categoria já foi discutida e aceita pelos educadores, por meio da APP/Sindicato, que representa os professores. Quanto à merenda escolar, Cleto tem um posicionamento diferente da APP/Sindicato. De acordo com ele, não está faltando merenda em nenhuma escola da região. O professor revela que o Núcleo teria repassado alguns alimentos que estão com prazo de validade se esgotando para as secretarias de educação dos municípios da região. “Não está faltando merenda em escola nenhuma. Muito pelo contrário se perguntar até em secretarias municipais dos municípios da região toda foi remanejado merenda porque estava com o prazo de validade vencendo. A merenda deveria ser consumida nos 15 dias de paralisação e que iriam vencer. Foi autorizado pela SEED que fosse cedida aos municípios”, complementa.
Cleto comenta que percorreu algumas escolas de Irati e Rebouças, assim como a equipe de merenda escolar do Núcleo Regional de Educação. “Percorremos todas as escolas da região e nenhuma delas está sem merenda. Nem mesmo no Colégio Florestal que possui um consumo maior, por ter alunos de regime de internato, com café, lanche, almoço e jantar não houve falhas. Não faltou merenda em local nenhum. Isso pode ser confirmado com os diretores das escolas”.
De acordo com Cleto, somente o município de Irati não foi beneficiado com a merenda remanejada, pois a secretaria de educação disse não havia necessidade.
“A ideia básica que o governo tem adotado é o bom senso de todas as partes. A categoria tem a possibilidade de se manter mobilizada e não trazer prejuízo para o calendário escolar e para o ano letivo das crianças”, afirma Cleto.