Especialista alerta sobre riscos e falta de preparo em trilhas após resgate de jovem no Pico Paraná

06 de janeiro de 2026 às 12h00m

O montanhista Murilo de Lima, da agência Pé na Montanha, explica por que o Pico Paraná é uma das trilhas mais difíceis do Estado e dá orientações essenciais para quem pretende se aventurar/Texto de Diego Gauron, com entrevista de Juarez Oliveira e Paulo Sava

Montanhista Murilo de Lima. Foto: Arquivo pessoal

O resgate do jovem Roberto Farias Tomaz, de 19 anos, que ficou cinco dias perdido no Pico Paraná, reacendeu o alerta sobre os riscos das trilhas e a importância da preparação. O rapaz desapareceu no dia 1º de janeiro e foi encontrado vivo na segunda-feira (5), após caminhar cerca de 20 quilômetros até uma fazenda em Antonina, onde pediu ajuda. Um vídeo mostra o momento em que o jovem chegou ao local mancando.

Segundo a Polícia Civil, ele fazia a trilha acompanhado de uma amiga, que decidiu seguir viagem sozinha após o amigo se sentir mal, o que acabou resultando em seu desaparecimento.

Para o montanhista Murilo de Lima, proprietário da agência de viagens Pé na Montanha, o episódio reforça a necessidade de planejamento, equipamentos adequados e nunca caminhar sozinho. “A trilha é considerada difícil, é uma das mais difíceis do Paraná. E o pessoal confunde muito, pois tem essa mania de pensar que vai conquistar o Pico Paraná como uma meta de vida. Só que muita gente vai sem preparo — é onde acontecem as ocorrências de acidente”, destacou.

Uma trilha para montanhistas experientes

Murilo explica que o Pico Paraná só perde em dificuldade para o Pico Siririca, e que o tempo médio de subida é de sete a oito horas. “É uma trilha de grau difícil e a gente sempre recomenda iniciar pelas menores”, orienta

Segundo ele, há períodos do ano em que as condições são mais seguras. “Estamos fora da temporada de montanha. O montanhismo se inicia final de maio, começo de abril até o final de agosto, quando o tempo está mais frio e mais estável. Já no verão, como é clima subtropical, vêm tempestades e chuvas de repente”, explicou

Crescimento dos casos de resgate

Murilo conta que o número de pessoas que se perderam nas montanhas da região do Pico Paraná aumentou 90% desde 2019, principalmente após a pandemia, período onde a busca pela aventura ao ar livre aumentou. “Ano passado foram 14 resgates, não só no Pico Paraná, mas no conjunto todo, que abrange várias montanhas com graus de dificuldade diferentes”, citou.

Ele lembrou que no início deste ano já ocorreram dois resgates, um deles de um rapaz que caiu de dez metros no Morro do Vigia. “Acontece geralmente nessa época mesmo, quando o pessoal vai onde não é recomendado, mas não é proibido. Graças a Deus os dois estão vivos”, disse.

Ir sozinho aumenta os riscos

O especialista reforça que ninguém deve fazer trilha sem companhia. “A gente nunca vai sozinho pra uma montanha, porque várias situações podem ocorrer. Posso virar o pé, posso cair numa barroca e quebrar o pé. E a regra é essa: nunca ninguém ficar pra trás, não andar sozinho no meio do mato. E foi o que aconteceu com o Roberto”, afirmou.

Murilo lembrou que o jovem do Pico Paraná sobreviveu porque manteve a calma e soube se proteger, seguindo instintos básicos de sobrevivência. “Ele fez o correto: escutou, parou, se abrigou, se aqueceu, encontrou o rio e costeou o rio até chegar à fazenda. Ele andou mais de 23 km costeando o rio. Tem que ter muita fé, muita energia pra chegar. Eu acredito que tem força divina aí também”, relatou.

Roberto Farias Tomaz desapareceu após fazer trilha no Pico Paraná com uma amiga e ficou cinco dias perdido na mata. Imagem: Redes sociais

Como se preparar para uma trilha

Antes de encarar montanhas mais desafiadoras, Murilo recomenda começar por trilhas mais curtas e simples. “O ideal é sempre começar pelas mais fáceis, como o Morro do Anhangava e o Morro do Cal, que são trilhas de meia hora, 20 ou 40 minutos”, disse. “A progressão deve ser gradual”, acrescentou.

O que não pode faltar na mochila

O montanhista lista alguns itens básicos que podem fazer diferença em situações de emergência. “Não pode faltar uma lanterna, um isqueiro ou fósforo, água, alimentos ricos em sódio e glicose — como chocolate, açúcar ou carbogel”, orientou.

Segundo ele, esses cuidados podem salvar uma vida. “Às vezes a pessoa vai para uma trilha e leva um monte de bobagem, e isso pode salvar uma vida — que nem no caso do rapaz”, completou.

Dicas de sobrevivência

Em caso de imprevistos, o primeiro passo é manter a calma. “A regra básica de sobrevivência é se acalmar, se proteger do frio pra não dar hipotermia”, disse.

Murilo orienta a procurar abrigo natural e depois tentar encontrar água. Seguir o curso de um rio, por exemplo, pode levar a vítima até a civilização. “Se prestar atenção, a natureza responde. De longe você consegue escutar o barulho de água”, explicou.

Equipamentos e roupas adequadas

De acordo com o guia, muitos acidentes acontecem porque as pessoas não usam vestimentas corretas. “Uma das principais coisas é o calçado. O ideal é uma bota de cano médio, que protege o tornozelo. Muitas torções acontecem por não estar com o calçado adequado”, explicou.

A roupa também influencia na segurança e no conforto. “O ideal é usar calça estilo tactel ou própria para trilha, que seja leve e seque rápido. Camiseta que proteja contra raios UV, chapéu ou boné também são importantes, especialmente pelo sol forte”, completou.

A importância da responsabilidade

Para Murilo de Lima, cada aventura exige consciência. De acordo com ele, o que muda é o preparo de quem sobe. Ele reforça que a emoção e a superação fazem parte do montanhismo, mas a segurança deve ser prioridade, tanto para evitar acidentes quanto para que histórias como a de Roberto tenham sempre finais felizes.

Pico Paraná. Imagem: Agência Estadual
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