Manifestantes ocuparam a praça de pedágio da BR 277 na manhã desta quarta-feira, 02, por cerca de duas horas. Veículos passaram pelo local sem pagar a tarifa/Paulo Sava e Diego Gauron

Funcionários do setor de pavimentação e conservação de rodovias da empresa Via Araucária, que estão em greve há dez dias, liberaram as cancelas nos dois sentidos da praça de pedágio da BR-277, em Irati, na manhã desta quarta-feira, 02.
O protesto teve início por volta das 08h30, durou cerca de duas horas e contou com a participação de pouco mais de 40 manifestantes, segundo estimativa da Polícia Rodoviária Federal (PRF). A corporação acompanhou a manifestação e intermediou o diálogo entre os envolvidos para que os direitos de todos fossem respeitados.
“A atuação da PRF teve como principal objetivo assegurar a fluidez do trânsito e o direito de ir e vir dos condutores, evitando bloqueios na rodovia e minimizando impactos para os usuários da via. A manifestação durou cerca de duas horas e foi encerrada com o acompanhamento da PRF às 10h30. Durante o período de manifestação as cancelas estavam abertas e a passagem dos veículos se deu sem cobrança. Após o término, a cobrança voltou a ser realizada normalmente”, informou a PRF, em nota.
Em entrevista coletiva, Paulo Ricardo da Cruz, diretor do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Pesada do Paraná (Sintrapav-PR), afirmou que a manifestação foi feita de forma pacífica. Nós abrimos as cabines de pedágio em protesto por um salário digno aos trabalhadores, que recebem abaixo do nosso piso. A Via Araucária assumiu a concessão e trouxe um sindicato que não nos representa. Todas as concessionárias anteriores sempre seguiram o nosso sindicato, e agora veio esta Via Araucária, pagando o salário mínimo regional do estado do Paraná, sem condão nenhuma, os trabalhadores comendo uma comida azeda, sem condição de benefícios, cesta básica, PLR (Participação nos Lucros e Resultados), lanche, banco de horas, não tem transporte nem nada disso. Queremos que tenham respeito à nossa categoria e que nos deem condições de trabalho. De um salário do trabalhador que trabalha 30 dias, sobram R$ 1200”, frisou.
O funcionário Rafael Sanger Bogo, que foi demitido recentemente da empresa, ressaltou que os manifestantes estão reivindicando apenas os próprios direitos, que são a troca do sindicato representativo, aumento de salário de R$ 1.518 para R$ 2 mil, pagamento integral de vale alimentação, cesta básica, café da manhã e lanche da tarde. “Nós só estamos lutando pelos nossos direitos, pelos direitos do trabalhador, por um salário justo. A galera que faz a roçada e a manutenção, tirando os descontos, fica um salário entre R$ 1.200 e R$ 1.300. Isto é uma vergonha para uma empresa do tamanho da Via Araucária. Estamos trabalhando honestamente e eles não reconhecem isso. Queremos o justo, comemos marmita gelada no trânsito. Eles estão nos reprimindo por causa disso, estamos trabalhando quase que em trabalho escravo, e isto é uma vergonha para uma empresa do tamanho da Via Araucária”, desabafou.

Principal reivindicação
A principal reivindicação dos servidores em greve é a mudança de sindicato que os representa. Atualmente, eles estão vinculados ao Sindicato dos Empregados nas Empresas Concessionárias do Ramo de Rodovias e Estradas em Geral do Paraná (Sindicrep-PR). No entanto, eles deveriam estar associados ao Sintrapav, de acordo com Luiz Alves de Oliveira (Luizinho), um dos diretores do sindicato.
“Este pessoal da rodovia é do Sintrapav, porque eles fazem a obra, o asfalto, tapa buracos. Estes são funcionários do Sintrapav, e é por eles que estamos lutando. O salário do pessoal do Sindicrep está bem abaixo do piso regional, que é de R$ 1.900. Nós estamos lutando por melhores salários, para que, pelo menos, a empresa garanta o piso regional, fora outras coisas que estão na nossa convenção e não na deles. Eles estão ganhando um cartão de R$ 630, mas têm que pagar mais R$ 30. Eles não têm PLR, mas a empresa deu depois que apertamos ela. Não tem café da manhã e tem que trazer comida de casa, e às vezes ela azeda no trecho. O pessoal está indignado, resolveu parar e chamar o sindicato, que assumiu a greve. O que queremos é que a empresa sente com o nosso sindicato e resolva a situação, pagando o Sindicato, melhorando as condições de trabalho deles e é isto que queremos, nada mais. Queremos o simples, o justo e a dignidade para o pessoal da Via Araucária”, frisou.
Em conversas anteriores com representantes do Sintrapav-PR, a Via Araucária afirmou que não irá trocar de sindicato para a representatividade dos funcionários, de acordo com Luizinho. “Eles alegam que o sindicato deles é o Sindicrep-PR, e que não vão obedecer ao nosso sindicato. Todas as outras concessionárias contratavam terceirizadas, todas do nosso sindicato. A única que não quer pagar para o nosso sindicato é a Via Araucária, do pessoal que trabalha no trecho. Não estamos falando do pessoal que trabalha no guincho, nas ambulâncias e cabines, pois eles têm o Sindicrep. Estamos querendo o pessoal do trecho, da rodovia, e é este pessoal que tem que ser favorecido pelo Sintrapav), pontuou.
O funcionário Osdival José Cordeiro, que atua na fábrica de placas da Via Araucária como auxiliar de produção, disse que produz 14 mil metros de placas e recebe apenas R$1.518 mensais. “14 mil metros de placas por R$ 1.500 por mês, que vergonha. Imagine este pessoal derretendo de sol a sol por R$ 1.400 ou R$ 1.500. Demorou para acontecer esta greve, e nós pedimos a ajuda de todos eles, dos praças de pedágio, que se unam conosco. Estamos brigando por eles também, que estão fechados ali dentro. Muitos deles já se queixaram do salário deles para nós, que também é defasado. Não tem cesta básica e nem vale alimentação para o pessoal. Estamos ralados se continuar assim”, ressaltou.
Grevistas aguardam posicionamento da Via Araucária
Os grevistas estão aguardando uma resposta da Via Araucária a respeito das reivindicações, conforme Jocimar Correia Lopes, um dos diretores do Sintrapav-PR. Ele voltou a alegar que a concessionária deveria contratar uma empresa terceirizada para fazer a manutenção das rodovias, a exemplo do que era feito no contrato de pedágio anterior. “Elas contratavam as empresas para fazer tapa buracos, a limpeza de roçada e a manutenção no asfalto. As empresas seguem o nosso sindicato, como a Derbli e a Castilho, e a diferença é gigante. A concessionária só quer mesmo seguir o Sindicrep por causa do valor do salário, que dá quase R$ 1500 de diferença. A nossa briga aqui é para que a empresa reconheça o nosso sindicato e siga a nossa convenção para dar um salário digno para o trabalhador”, frisou.
Jocimar chamou a atenção do governador Ratinho Júnior e dos deputados estaduais e federais para a situação dos trabalhadores. “Chamo a atenção do governador e dos deputados para tomarem uma atitude e fazer com que a empresa siga o sindicato correto. A empresa quer que façamos uma ação na Justiça, que pode levar dois anos para terminar. Até lá, a empresa lucrou mais de R$ 5 milhões, para se ter uma ideia. Quem já trabalhou na estrada sabe que o serviço é pesado, árduo e difícil, são poucos que aguentam. Por um salário “mixuruca”, uma escravidão para os trabalhadores, que estão indignados. Fizemos uma manifestação pacífica e ordeira, sem quebrar nada, para chamar a atenção da concessionária e fazer ela sentar à mesa para fazer uma negociação e dar um salário digno para o trabalhador”, comentou.
Posicionamento da Via Araucária
Em nota enviada pela Assessoria de Comunicação, a Via Araucária informou que a atitude tomada pelo Sintrapav-PR e alguns colaboradores do setor de conservação viária da concessionária é ilegal. “Tal ação é ilegal e gera prejuízos tanto para a concessionária, que opera em total conformidade com o contrato de concessão, quanto no recolhimento de ISS repassado às prefeituras das cidades que abrangem o trecho”, diz uma parte da nota.
A empresa alega que o Sintrapav-PR não representa os trabalhadores das concessionárias de rodovias, mas sim os servidores da construção pesada no estado. “De acordo com a legislação trabalhista, o enquadramento sindical está vinculado à atividade preponderante do empregador. Desta forma, o sindicato representativo dos colaboradores da Via Araucária é o Sindicato dos Empregados nas Concessionárias no Ramo de Rodovias e Estradas em Geral do Estado do Paraná (Sindicrep-PR)”, diz outro trecho da nota.
A concessionária também ressalta que todos os direitos dos trabalhadores estão sendo cumpridos, de acordo com o que foi estabelecido em Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) firmado com o Sindicrep-PR. “Além disso, todas as medidas legais cabíveis estão sendo adotadas para restabelecer plenamente a operação da praça de pedágio de Irati e garantir a continuidade dos serviços prestados aos usuários da rodovia.Por fim, reiteramos nosso compromisso com a legalidade, a segurança viária e a qualidade dos serviços oferecidos à população”, concluiu, em nota, a Via Araucária.






