Dagoberto Waydzik lança livro sobre história das localidades do interior de Irati

15 de março de 2023 às 22h02m

Livro resgata histórias e curiosidades de 27 comunidades do interior de Irati e duas da região. Cerimônia de lançamento aconteceu na última sexta-feira (10)/Texto de Karin Franco, com reportagem de Rodrigo Zub e Paulo Sava

Dagoberto Waydzik é autor dos livros “Terra Dobrada: Coragem, Fé e Resiliência” e “Historicidade”. Foto: João Geraldo Mitz (Magoo)

Na noite de sexta-feira (10) aconteceu o lançamento do livro “Terra Dobrada: Coragem, Fé e Resiliência”, escrito pelo iratiense Dagoberto Waydzik, em cerimônia realizada no Clube do Comércio de Irati. O livro conta a história e curiosidades de 27 comunidades de Irati e duas da região.

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Em entrevista à Najuá, Dagoberto contou porque resolveu retratar a história das comunidades de Faxinal dos Francos, em Rebouças, e da Serra do Tigre, em Mallet. “Teríamos mais comunidades de Irati para relatar. São mais de 60, mas eu escolhi 27 nesse primeiro lançamento do livro. As duas de fora são Faxinal dos Francos, por causa que é a vizinha do Riozinho [em Irati] e também tem um personagem muito forte da história de Irati que é o seu Jango Anciutti (João Batista Anciutti) que era detentor daquelas terras desde o Riozinho até a Comunidade do Salto. Também por causa de uma visita que eu fiz à Serra do Tigre, em Mallet, aonde tem a primeira igreja ucraniana do Brasil, feita de madeira, totalmente encaixada. Uma obra de arte da arquitetura. Aquilo me tocou muito, eu fiz uma crônica e resolvi colocar nesse livro”, disse.

O escritor explica que o nome do livro remete à experiência dos primeiros imigrantes na região. “No caminhar por diversos anos e nós nos deparamos com relevo da nossa região de Irati, até dos municípios vizinhos, muito dobrado. Aonde, principalmente, os imigrantes tiveram primeiro a coragem para atravessar o Oceano Atlântico, em uma terra desconhecida, por um País com uma cultura totalmente diferente, um clima diferente. Muita fé, porque eles tinham adversidades com guerras, uma situação bem complicada e, principalmente, resiliência porque venderam para eles, os agentes de imigração do Brasil, que eles iam encontrar aqui uma terra totalmente plana, um solo bom, aonde o milho dava cinco metros de altura, as espigas com 50 centímetros de altura. Chegaram aqui e encontraram uma realidade totalmente diferente”, explica Dagoberto.

A história dos imigrantes nas comunidades é um dos principais pontos do livro que também inclui a história de outros povos com as localidades. “Os imigrantes são o principal foco do livro, mas respeitamos os caboclos que tinha aqui e as outras raças que vieram junto nessa imigração, na segunda leva. A imigração veio, principalmente, pelo fator econômico quando foi abolido a escravatura, após a Guerra do Paraguai, começava a se falar com os deputados da época no Congresso para facilitar a imigração porque precisava de mão de obra para agricultura, aonde que a agricultura era mais bem-sucedida na Europa e, principalmente, nos países eslavos”, afirma o escritor.

Dagoberto autografando livros durante o lançamento da publicação que conta a história de 27 comunidades de Irati e duas da região. Foto: Jussara Harmuch

O livro traz informações sobre a geografia da região, como hidrografia dos rios e das bacias, estradas e distâncias. Por meio de entrevistas com pessoas mais antigas das comunidades, Dagoberto também recuperou histórias, curiosidades e a origem dos nomes das localidades.

Um dos locais é a comunidade de Alvorada, que quando pertencia a Prudentópolis, se chamava Chupador. “O Rio dos Cochos nasce lá e flui por alguns metros. É absorvido totalmente para baixo da terra, formando um banhadão e para frente ele já sai novamente e flui a flor da terra. O lugar era chamado Chupador, por causa disso. Coxinhos, o pessoal vinha de mula, de burro, de cavalo, de carroça, de Imbituva para Irati. Imbituva é mais velha que Irati. Para parar e dar água para os cavalos, eles falavam assim: ‘Vamos parar naqueles coxinhos’. Ali onde é a Olaria João Maria. Paravam ali e o nome ficou Coxinhos”, conta.

O livro ainda traz curiosidades de pessoas que viveram nas comunidades. “O Itapará, por exemplo, a comunidade mais longínqua de Irati. Ela foi desbravada praticamente pela família Gurski, coronel José Gurski. Essa pessoa tinha uma grande serraria, tinha muita mata. Itapará, nos anos 1910, 1908, tinha teatro, tinha biblioteca. Era altamente produtiva. Não que não seja hoje, mas tinha uma população muito maior. Quando foi feito uma nova medição pelo prefeito de Irati, que acompanhou agrimensor na época, as terras de lá se viu que pertencia a Irati. Passou para Irati, mas aquele desbravador, o coronel José Gurski, ele foi prefeito de Prudentópolis. E o filho dele, que conviveu com ele, foi prefeito de Irati. Uma mesma família, que desbravaram um lugar, foram prefeito de dois municípios diferentes”, explica.

A história das comunidades também foi recuperada nas entrevistas. “Eu fiz entrevista com uma pessoa que fez 100 anos há pouco tempo. O Seu Isaltino Machado, na comunidade do Pirapó. Aliás, o Pirapó é berço de político. Teve seis vereadores, dois prefeitos, dois deputados estaduais e até um governador que foi o seu João Mansur”, conta.

Outro personagem marcante do interior de Irati também aparece no livro. “Nessa região do Pirapó, Arroio Grande, Monjolo, teve um personagem que eu não entrevistei porque ele já é morto há muito tempo, mas era famoso, que era um pistoleiro chamado João Moraes. Era terrível. Era uma pessoa muito séria, mas tirasse ele da linha, ele ia para vias de fato. Morreu assassinado inclusive”, relata Dagoberto.
As entrevistas foram realizadas com o auxílio de pessoas conhecidas e familiares que auxiliaram o escritor chegar até às pessoas que contaram as histórias das comunidades. “Além do meu sogro que é um dos agrônomos mais antigos, trabalhou por mais de 60 anos, ele conhecia as famílias agricultoras, o pessoal do pátio da prefeitura, as professoras. Eu ia perguntando quem é que a família mais tradicional, quem que é família mais antiga. Isso é um processo bastante difícil, porque muitas pessoas, o povo eslavo, principalmente, ele é muito desconfiado e não quer dar entrevista”, conta o escritor.

Num determinado dia, Dagoberto teve que mostrar que conhecia realmente a cultura para ganhar a confiança do entrevistado. “Eu cheguei numa comunidade, perguntei para uma professora. Ela disse: ‘Eu sei um pouco, vou te contar, mas o meu sogro conhece muito mais da região’. ‘Onde é que fica o teu sogro?’. ‘Fica 3 quilômetros daqui. Na mesma comunidade, tem uma cerca desse tipo, na frente, e do lado tem um portão’. Eu andei os três quilômetros e olhei uma cerca, mas não era no local que ela falou. Passei e fui para frente, não tinha ninguém. Peguei o carro, deu uma ré, tinha um senhorzinho no meio de uma plantação de repolho a frente da casa. Eu bati palma e ele veio. Ficou uns dois três metros de distância do portão. ‘Aqui que mora fulano?’. Ele pôs a mão na cintura e disse: ‘Por quê?’. Daí que eu vi que era ele mesmo. Eu falei na língua dele [conquistando a confiança do entrevistado]”, disse.

O escritor já havia lançado durante a pandemia o livro Historicidade, que conta a história dos bairros de Irati, a partir de crônicas que costumava publicar nos jornais locais e no site da Najuá. O escritor conta que o livro nasceu do desejo de gravar essa memória dos bairros. “Por causa do meu trabalho na prefeitura, eu convivi muito com as pessoas, com obras e com locais. O Historicidade se deu porque eu participei da criação, com os prefeitos da época, de muitos bairros. O Alto da Lagoa, o Dallegrave, o Novo Irati. Diversos bairros em sistema de mutirão. Com o falecimento do grande escritor José Maria Orreda ficou um lapso na história. Não que eu queira tomar o lugar, longe disso, eu sou aprendiz de escritor perto deles, mas com esse conhecimento que eu tinha, eu fui a campo. Escrevi desses locais que não foram relatados, desses bairros novos. Mas surgiu a possibilidade de falar da Vila São João, do Nhapindazal, do Riozinho, de Gutierrez, bairros há mais tempo existentes”, relata.

Dagoberto destaca que a obra foi realizada a partir das entrevistas que as pessoas deram e que o desejo é que a obra auxilie na preservação da memória. “Eu só quero deixar claro que tem muito mais para escrever e não é uma verdade absoluta o que eu escrevi porque são pesquisas que eu faço e entrevistas. Eu escrevo a fonte do que eu falei. Muitas vezes somos até contestados, faltou isso, faltou aquilo. Mas é uma maneira da gente de deixarmos registrado a nossa história porque como está aqui no Eclesiastes, na orelha do livro: o vento passa, o sol nasce, o sol morre, se coloca. A terra continua a mesma. Nós passamos, mas as nossas memórias tem que ser registrada para os nossos sucessores, netos e bisnetos, saberem da luta que os seus antes passados tiveram nessa região”, disse.

O livro está sendo vendido a R$ 50 no Sebo Centenário, ao lado do Clube do Comércio.

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