Curta-metragem experimental “Microplásticos”, de André Stoklos, ficou em segundo lugar no 5º Prêmio Cultural Pindorama/Karin Franco, com reportagem de Juarez Oliveira

Resumo: – Curta é baseado em um texto elaborado pelo próprio artista;
- André conta que encontrou em suas pesquisas informações sobre a contaminação dos microplásticos e qual é o impacto no ser humano;
- A intenção era transformar o texto em uma peça de teatro.
O multiartista iratiense André Stoklos foi um dos premiados no Prêmio Cultural Pindorama, um concurso nacional que reúne artistas de todo o Brasil para discutir cultura, clima e futuros possíveis. O curta-metragem experimental “Microplásticos”, feito em Irati ganhou o segundo lugar na premiação.
O curta é baseado em um texto elaborado por ele. “Eu estava num momento que eu queria trabalhar mais em questões artísticas, mas eu estava passando por algumas questões psicológicas, algumas travas, como eu estava me referenciando. Esse texto surgiu justamente num processo em que eu estava buscando melhorar. Teve um dia que eu saí tomar o sol e comecei a dançar umas músicas de um jeito muito esquisito. Naquele processo, de eu estar dançando, começou a vir essa metáfora: ‘Nossa! Essas travas psicológicas, essas coisas que eu sinto, que eu sei que outras pessoas sentem também, parece um pouco com os plásticos se acumulando nos rios ‘. Então, começou a vir esse texto na minha cabeça”, conta.
Com a ideia na cabeça, André começou a se aprofundar no assunto. “Eu comecei a fazer uma pesquisa na internet do que é, como é que está sendo esse problema. Eu sabia, mas não tinha me aprofundado tanto. Eu fui ver que, realmente, se tratando da nossa cabeça, dessa ansiedade que tem níveis alarmantes no mundo hoje em dia, também está muito relacionado aos níveis de plástico. O que acontece é que esses plásticos, nós ingerimos, eles estão todos em pedaços. Os plásticos vão se decompondo pequenininho, pequenininho, pequenininho, ao ponto de virar micro e eles estão em todo canto. Onde nós respiramos, fio de poliéster, farelos de garrafa PET”, explica.
O artista conta que encontrou em suas pesquisas informações sobre a contaminação dos microplásticos e qual é o impacto no ser humano. “Isso nós acabamos respirando, acabamos engolindo e vai dentro do nosso corpo, soltando os compostos químicos que foram utilizados na produção daquele plástico. Isso tem várias consequências dentro do nosso organismo. Isso afeta bastante na comunicação dos hormônios. Tem também indicativos de que isso está diretamente ligado à redução da contagem de esperma nos homens. Reduziu 50%, não coincidentemente, desde a introdução dos plásticos no mundo, que faz, acho que 60 anos”, disse.
A intenção era transformar o texto em uma peça de teatro. Algumas cenas foram escritas, porém André acabou deixando o texto guardado, até que no início do ano foi lançado o edital da premiação. “O tema desse ano era ‘Cultura, Clima e Como Imaginar Futuros Possíveis’. Aí eu falei: ‘Nossa, meu texto fala diretamente disso, que é cultura, clima’. O que faltava era a parte de como imaginar futuros possíveis, porque eu estava simplesmente muito apocalíptico”, conta.
O texto original foi adaptado para ter entre 4 a 5 minutos de duração. “Daí eu fiz uma poesia no final, que é justamente falando do processo de como veio esse texto para mim. Que foi eu pisando descalço, dançando, suando, usando meu corpo. Isso eu vi como uma possibilidade de futuros possíveis. Nós entrarmos em contato com o nosso corpo, entender como é que ele reage às coisas, como que nós digerimos as coisas também”, disse.
André contou com a ajuda de amigos que auxiliaram no planejamento da gravação do curta e na adaptação do texto. O curta foi gravado em março, nas dependências do Centro Cultural Clube do Comércio, em Irati. “Quando chegou no dia, o João Manuel Zerkalo, que é daqui de Irati, também é fotógrafo, ele que me ajudou com os equipamentos, a montagem, a pensar como íamos construir. Ali já foi outra etapa de adaptação. Porque nós temos algumas ideias, a hora que chega na prática, como que isso vai ser executado? O que dá para fazer? O que nós precisamos adaptar?”, explica.
A gravação do curta ainda contou com problemas no dia. “No dia foi um caos ainda. Foi um dia que choveu horrores. A hora que montamos tudo, acabou a luz. Quase não aconteceu esse curta, que nós ficamos meia hora, volta, não volta, volta, não volta. Se der mais 15 minutos, nós vamos embora, não grava e é isso aí. E voltou a luz. Então, vamos nessa”, conta.
Além da falta de luz, foi preciso fazer mais adaptações por causa do som do lugar. “Nós íamos gravar, eu ia interpretar tudo e a gravação ia ser ao vivo. Chegamos lá, a acústica estava péssima e chovendo horrores. Todo o áudio que ele gravava, eu falava: ‘Cara, não vai dar’. Então, eu falei: ‘Faz o seguinte, eu vou ser mais ilustrativo aqui, vou só fazer a parte do corpo’. Então, eu tenho um quadro, principalmente na primeira parte, eu fiquei bem ilustrativo com as coisas, então eu adaptei também. Em vez de eu estar falando, eu fui mostrando, desenhando no quadro, fazendo algumas metáforas visuais. Tem um momento que eu desenho um pulmão e vou colando plásticos ali no pulmão”, explica.
O conhecimento sobre teatro ajudou André a realizar as adaptações. “Eu sei algumas técnicas de aquecimento. Então, eu fui fazendo isso. Andando pelo espaço, pula e aquece o corpo. Isso eu fui fazendo para ficar mais à vontade, mas eu já tinha meio que desenhado ali, então era só eu fazer aquilo, captar bem na câmera no momento. Depois teve em casa o processo de gravar por cima. Como eu tinha tempo, fui fazendo, não gostei do pedaço, fiz aquele outro pedaço. Fui adaptando e teve uma construção desse passar na mensagem, que também foi muito forte na montagem. A hora que você tem o material em mãos, eu fui montar, a sequência das coisas, pensando no tempo, nas pausas, eu gosto muito dos contrastes na arte. Tem ali um pedaço onde eu falo, tudo seco e entra o mar. Isso tudo pensado para esse impacto, para passar a mensagem”, disse.
A premiação aconteceu no dia 15 de abril, de modo online. Os curtas-metragens concorreram na modalidade Comunidade Externa às Universidades, com o primeiro lugar ficando com Wayner Tristão Gonçalves, da cidade de Prado, na Bahia, pelo curta de animação em aquarela “Cheia”. O segundo lugar ficou com o iratiense André Stoklos.
Os dois primeiros lugares receberam premiação em dinheiro. Além de curtas, o evento premiou outras produções culturais em categorias como Poema, Fotografia, Vídeodança, Vídeo-carta e Música. A premiação, que está em sua quinta edição, é organizada pelas universidades Unipampa, UNILA, UFPEL, UFFS e UTFPR.
André relembra como foi receber a notícia. “Eu estou agora nessa, de caçar editais, caçar prêmios e tentar mandar meus trabalhos para uma coisa mais formal. A hora que veio o resultado foi exatamente isso. Meu trabalho está sendo reconhecido. Que legal! Eu sabia que esse texto tinha uma potência”, disse.
O artista destaca que ficou ainda mais contente após ver o primeiro colocado, que foi uma animação em stop motion, usando pinturas em aquarela. “Engraçado que eu fiquei mais feliz ainda de ver que lindo foi o primeiro lugar também. O primeiro foi uma animação toda feita em aquarela. Bem metafórico, falando das pessoas se afundando e a água inundando as cidades. Tudo feito de um jeito muito lindo, com aquarela. É um trabalho muito lindo que foi em primeiro. E isso deixa eu mais feliz de ir pensando nisso. Cara, se eu estou em segundo, se esse está em primeiro, o que mais que tem de tanto, porque eles falaram que tiveram mais de 200 inscritos”, conta.
O curta-metragem “Microplásticos” ainda não tem data de lançamento público. “Tem alguns festivais que exigem ineditismo da obra, então como eu fiquei em segundo lugar, não passou, então eu continuo tendo ineditismo da obra. Eu não perdi o ineditismo por conta desse concurso. Eu ainda estou mandando para os festivais. Estou esperando como é que vai ser as respostas deles. Assim que eu tiver, eles estão liberados para nós assistirmos, e aí eu posso fazer uma exibição”, explica.
A intenção é realizar uma exibição pública em um evento que possa reunir outras obras produzidas em Irati, além de realizar um bate-papo sobre produção audiovisual no interior. Após o lançamento, o curta deve ser exibido em streamings, como o YouTube.
Para André Stoklos, o curta-metragem é uma forma de iniciar a conversa sobre microplásticos. “Eu acho que, principalmente, se tratando de um curta, ele funciona muito bem como um início de conversa. Porque ele traz as questões, mas querendo ou não, como eu disse, tem outras [questões] que você ainda pode investigar e que eu espero que as pessoas peguem as informações e vão atrás”, conta.
Sarau no Parque
André Stoklos também é um dos organizadores do Sarau no Parque Aquático. O evento é um espaço para os artistas mostrarem suas produções. “O sarau é um espaço para as pessoas levarem poesia, para elas levarem músicas. Mas a proposta desse nosso sarau, nós sempre tentamos mostrar o que nós temos aqui. Então, eu acho lindo que 95% do que aparece lá são produções autorais das pessoas de Irati”, disse.
A próxima edição do sarau ainda não tem data anunciada, mas deve acontecer ainda neste ano. O horário da programação continua das 16 horas até às 22 horas, no Parque Aquático, em Irati.
Para André, a programação é um meio de inspirar novos artistas. “É um movimento muito lindo mesmo, um negócio que me encheu de sensação de importância, de ver o quanto que as pessoas têm para apresentar e o quanto que ter esse palco, ter esse lugar para troca, para colocar a arte em circulação, o quanto isso inspirou as pessoas e, inicialmente, a mim. Acho que esse texto também foi uma das coisas que me levou a querer levar para o Sarau, mas esse lugar de ter um palco para apresentar, como é interessante o efeito que tem das pessoas levarem”, disse.