“A gente deixou tudo por liberdade”: venezuelana que vive em Irati fala sobre a captura de Maduro

11 de janeiro de 2026 às 21h03m

Maryuri Salas fugiu da crise na Venezuela e acompanha os desdobramentos após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Ela relatou medo, esperança e fez críticas a quem defende o regime em nome da “soberania” ou do “petróleo” /Reportagem de Diego Gauron

Morando em Irati, a venezuelana Maryuri Salas falou sobre o medo vivido por quem fugiu da ditadura e criticou a defesa do regime em nome do petróleo e da soberania. Foto: Diego Gauron

A venezuelana Maryuri Salas vive em Irati há oito anos. Ela conta que deixou seu país por não conseguir mais viver com dignidade. “Emigrei do meu país porque não tinha condições de viver com dignidade. A Venezuela enfrenta uma crise há muito tempo, em que o regime destruiu as instituições, a economia e o tecido social”, afirmou.

Maryuri lembra que a população enfrenta perseguição, censura e tortura, e que a crise migratória não foi uma escolha. “As pessoas saíram por necessidade, não por vontade”, disse. Assista à entrevista aqui.

Ela declarou apoiar a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. A operação aconteceu há uma semana, na madrugada de 3 de janeiro, por volta das 3h no horário de Brasília, quando forças dos Estados Unidos realizaram uma operação que mudou o curso da política latino-americana.

“Estou a favor da captura do ditador e espero que ele enfrente a justiça internacional. A população venezuelana precisa de justiça por tudo o que aconteceu”, disse. “É uma felicidade silenciosa para quem ainda mora na Venezuela”, completou.

“Falaam de soberania, mas nunca olharam para o nosso povo”

Maryuri lembra o momento em que soube da operação americana e da captura de Maduro. “Começou a tocar o telefone e eu pensei: ‘meu Deus, o que aconteceu?’ A primeira mensagem que vi foi uma dizendo que estavam nos bombardeando. Foi muito assustador, porque a gente não está contra o próprio país”, relatou.

No entanto ela critica a reação de quem condena a ação dos Estados Unidos em nome da soberania venezuelana. “Escuto muito falar de soberania, mas há mais de 20 anos falamos para todas as organizações políticas o que estava acontecendo, e ninguém escutava. Agora, que alguém olhou para nós, todo mundo fala em soberania. Falam de petróleo, mas e os chineses, russos e cubanos estavam na Venezuela fazendo o quê? Estavam roubando nossas riquezas?”, questionou.

Ela também rebate os argumentos de que os Estados Unidos buscam o controle das reservas de petróleo da Venezuela, afirmando que os venezuelanos jamais se beneficiaram dessas riquezas. “Dizem que Donald Trump vai ficar com o petróleo da Venezuela, mas nós nunca vimos nenhuma riqueza desse petróleo”, disse.

Anúncio de libertação de presos políticos traz esperança

Para Maryuri, o anúncio da libertação de presos políticos — feito enquanto ela concedia a entrevista à Rádio Najuá no dia 8 de janeiro — representa um sinal de esperança ainda maior do que a própria captura de Nicolás Maduro. Naquela quinta-feira, o governo venezuelano anunciou que “um número significativo” de detentos será libertado, incluindo presos políticos venezuelanos e estrangeiros, em um gesto que autoridades definem como parte de um esforço pela unidade nacional após a captura do ex-presidente.

“Melhor ainda que a captura do ditador. Não é só tirar da cadeia, é acabar com tudo o que aconteceu. Temos o maior centro de tortura da América Latina, o El Helicoide. Estão falando que vão fechar. Esperamos em Deus que fechem e que se acabe todo esse pesadelo”, comentou.

História de superação e acolhimento no Brasil

Maryuri conta que deixou a Venezuela e passou pela Bolívia antes de chegar ao Brasil. Aqui, construiu uma nova vida e formou família. “Conheci meu esposo brasileiro e sou totalmente agradecida ao povo que nos acolheu de braços abertos. Em meio a tanta tragédia, conseguimos uma história muito bonita”, relatou.

No entanto, a distância da família ainda é dolorosa. “Saí de casa, deixei meus pais. Sinto aquela dor, aquela saudade de ficar com minha mãe, com meu pai, de dar um abraço. Acabou de passar o Natal, e são oito anos sem nos abraçarmos”, contou, emocionada.

Apesar disso, ela mantém a fé de que em breve voltará a ver a família. “Agora estamos com aquela esperança de que vamos nos abraçar novamente. Assim como eu, todos os venezuelanos poderão voltar para casa e se abraçar também.”

“Ainda temos medo, mas também esperança”

Maryuri descreve o impacto psicológico vivido pelos venezuelanos diante da violência e da repressão. “Não é fácil olhar pela janela e ver que estão bombardeando a sua cidade. É um impacto muito forte, que não se recupera facilmente”, afirmou.

“E o problema não é só econômico. Lá não há liberdade. Você vive com medo de tudo, não pode falar nada. Para dar essa entrevista, ainda tive medo”, confessou.

Ela reconhece que há quem discorde da captura de Maduro, mas diz que a maioria da população recebeu a notícia com alegria. “É mentira falar que 100% da população aceitou, mas a maioria ficou feliz. Tenho família que se trancou no banheiro para celebrar. Foi um choque emocional. Tenho certeza de que foi a melhor coisa que aconteceu no meu país.”

Reconstrução e lição de liberdade

Mesmo com medo, Maryuri acredita que a Venezuela pode se reconstruir. “Temos muita esperança de que a Venezuela será próspera. Vamos reconstruir a sociedade, porque o venezuelano sabe que tem um país muito rico, não só em petróleo, mas em recursos naturais”, declarou.

Ela defende que o futuro do país dependa de valores morais e do trabalho e ficar atento às promessas de governantes. “A educação e o trabalho não podem ser perdidos, porque andam junto com a moral e a dignidade de um povo. É preciso escolher bem quem são aqueles que prometem coisas. Enquanto as pessoas brigam entre si, os políticos falsos tiram a liberdade e os bens da nação”, disse.

Para Maryuri, o que aconteceu na Venezuela serve de alerta. “A gente deixou escapar a liberdade das mãos por confiar em dirigentes políticos falsos”, concluiu.

Assista à entrevista completa no Instagram da Najuá.

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