A caminho do Alasca, casal de argentinos passa por Irati

14 de maio de 2023 às 21h41m

Em entrevista na Rádio Najuá, casal contou sobre desafio de cruzar o continente americano com duas crianças/Texto de Karin Franco, com reportagem de Paulo Sava e Rodrigo Zub

Casal Walter e Ayelén estão viajando para o Alasca junto com os filhos Emma e Toro. Foto: João Geraldo Mitz (Magoo)

O município de Irati foi um dos pontos de passagem de um casal de argentinos, Walter e Ayelén Moncagatta, que estão viajando em um motorhome a caminho do Alasca, nos Estados Unidos. Eles fizeram uma pausa na viagem para contar sua história na Rádio Najuá.

O casal começou a aventura há três anos em Buenos Aires, capital da Argentina, e seguiu com as viagens pelo Uruguai, passando pelo sul do Brasil. Em Irati, o casal chegou no domingo (7) e ficou até a metade da semana, para onde seguiu para Prudentópolis.

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Com dois filhos pequenos, Emma de 6 anos e Toro, de 3 anos, o casal conta que enfrenta dificuldades, mas que segue com o planejamento. “Tudo foi um desafio para poder querer sair nesta viagem. Estamos muito contentes. Às vezes, as coisas ficam um pouco complicadas, mas tudo se resolve”, conta Ayelén.

A ideia de partir para aventura veio com Ayelén que começou a conversar com seu marido sobre a viagem. “Na cidade de Buenos Aires estávamos falando bastante. Tínhamos muita vontade de viajar. Conhecer o mundo. De compartilhar com os nossos filhos. Em Buenos Aires, estava complicando bastante”, disse.

A economia da Argentina dificultava com que o casal pudesse realizar passeios e a viagem em um motorhome passou a ser uma possibilidade. “Com a nossa economia, não era possível ter muitas viagens de férias. Quando podíamos, saiamos dois, três dias e voltávamos a trabalhar. Chegou em um momento que não alcançava. Nós queríamos conhecer mais e ela disse para mim: ‘E se vendemos tudo e viajamos?”, conta Walter.

Família da Argentina está viajando em um motorhome. Foto: João Geraldo Mitz (Magoo)

O único receio era a filha Emma, que na época tinha três anos. Walter conta que não queria embarcar na aventura, já que a menina iria entrar na escola. Contudo, a Argentina possibilita com que a criança possa ter uma educação em formato de homescholing. “Ela me mostrou um sistema que Argentina tem para viajantes, pessoas que vivem no estrangeiro, um sistema educacional à distância. Eles compartilham todo o material que nós temos que ensinar a ela e nós ensinamos tudo ela, para que ela tenha seu estudo igual”, afirmou Walter.

Com o ensino resolvido, o casal começou a se preparar para a viagem. Foram seis meses de preparo, incluindo a venda de móveis e pertences do casal. O dinheiro ganho com a venda possibilitou a compra de um motorhome que foi adaptado e equipado com cozinha, banheiro e quarto.

O casal se preparava para começar a aventura no dia 25 de março de 2020, mas cinco dias antes, a Argentina fechou suas fronteiras por causa da pandemia da Covid-19. “Na Argentina, no dia 19 fecharam tudo. Tínhamos vendido tudo e estávamos em nossa caminhonete, para sair à rua e sem tudo. Éramos três”, conta Walter.

O lockdown na Argentina foi muito mais rígido que no Brasil e o casal teve que adiar temporariamente os planos da viagem. “Nós ficamos um ano vivendo em nossa caminhonete, na rua, em frente à calçada, na casa de um amigo porque não tínhamos onde ficar. Um ano depois, ela ficou grávida de Toro”, afirma o argentino.

A gravidez modificou um pouco os planos do casal que já enfrentava a família, que estava com receio da viagem e que ficou ainda mais depois da descoberta da gravidez. Porém, o casal decidiu continuar com o projeto.

O casal chegou a viajar para a província de Mendoza, ainda na Argentina, mas teve que voltar para que Ayelén fosse atendida por um médico. Com a gravidez avançada, ela ficou internada por duas semanas e Walter chegou a trabalhar de Uber durante esse tempo. O casal ainda vendia roupas esportivas para ampliar a renda. “Voltamos à Buenos Aires. Ela foi ao hospital. Ficou internada duas semanas porque tinha o inconveniente da gravidez do Toro. Eu fiquei na casa da minha mãe, com Emma [a outra filha], e também tem que trabalhar e comecei a trabalhar de Uber em Buenos Aires”, explica.

Mas um episódio mudou a rotina da família. Em uma de suas corridas, Walter foi roubado. Os ladrões roubaram carro e roupas, deixando Walter desnudo em uma estrada. O episódio foi decisivo para que o casal saísse de viagem logo após o nascimento de Toro.

Eles saíram de Buenos Aires e seguiram para a patagônia argentina, passando pelas cidades de Mendonza até Bariloche. Depois o casal seguiu para o Uruguai, até chegar no Brasil. No Uruguai, o casal fez uma pausa na viagem e voltou à Argentina para assistir a Copa do Mundo de 2022, que foi vencida pelo país sul-americano. “Nós estávamos em Uruguai. Nas primeiras partidas, festejávamos e [a equipe] ia mal”, conta Walter.

Com a previsão do título, os argentinos cruzaram a fronteira em 20 quilômetros e comemoraram com os compatriotas. “Fomos à Argentina, à cidade de Gualeguaychú, cidade em Entre Rios [província], e foi uma festa. Estacionei nossa caminhonete em uma estrada e foi todo mundo festejar”, disse.

O casal entrou no Brasil em 28 de março de 2023 em Chuí, no Rio Grande do Sul. Com 90 dias de visto como turista, o casal já passou por Pelotas, Camaquã, Santo Antônio da Patrulha, Torres e subiu pelo literal até chegar em Santa Catarina. Eles contam que chegaram a visitar as capitais de Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba, mas não encontraram o acolhimento que viram em cidades mais pequenas. O acolhimento nos países também foi um diferencial notado por Walter. “Notamos que nós não encontramos fronteiras de encontro, por exemplo, com as pessoas. No Uruguai foi igual que a Argentina e Brasil foi melhor que Uruguai e Argentina. Para nós, em muitos lugares, chegavam em nós, se precisávamos de alguma coisa”, explica.

O casal chegou em Irati no domingo (07), após passar em Campo Largo. Aqui, encontrou a empresária Cláudia Fagali, da Fag Viagens de Irati, que conversou e ajudou o casal durante a sua permanência no município. A empresária conta que o encontro foi por acaso. “Eu fui na academia. Fiquei para fora de casa, sem a chave e estava lá para fora da casa, quando vi ele passando com menininho, dando a volta na quadra. Ele me cumprimentou, eu cumprimentei. Ficamos eu e o meu filho um tempão lá para fora de casa, conversando, divagando. Quando vi, ela estava vindo com a menininha. Eu ouvi um espanhol ali. Meu ouvido já pegou um espanhol”, conta.

Cláudia começou a acenar para a menina e em pouco tempo estava conversando com o casal. “Começamos a conversar, eu já fiquei super animada conhecendo a história deles. Convidei, como eu tenho uma criança também de quatro anos, ela estava super comunicativa e me mostrando os brinquedos dela, eu falei vem amanhã até à minha casa para você brincar com as minhas crianças. Eles agradeceram o convite e combinamos que hoje de manhã eles iam lá em casa conversar comigo”, explica.

Enquanto conhecem as pessoas nas cidades, o casal também aproveita para se revezar para continuar trabalhando e tendo recursos para a viagem. Um dia, Walter sai pelos comércios vendendo incensos, enquanto isso, Ayelén cuida das crianças. No outro dia, os papéis trocam e Walter fica com as crianças e Ayelén sai para vender incensos. É o trabalho que também define o tempo de permanência em cada lugar. “Depende do trabalho porque como vendemos incensos em quantidade. Nós sempre vendemos em lojas. A quantidade de lojas que tem no lugar também influencia nos dias de estadia no lugar. Aqui tem bastante, estivemos por quatro dias, trabalhando e caminhando nos bairros e conhecendo gente também”, conta Walter.

A temperatura também é outro fator que ajuda a definir o tempo de permanência. Agora, o casal tem o objetivo de ir até o Paraguai. “Seguimos muito o clima. Quando se tem muito frio, tratamos, como em Paraguai, vai estar bem a temperatura nesses meses. E vai ser Paraguai. A não ser que venha o calor no norte Argentino, subimos por Bolívia”, explica.

Mas antes, o casal experimenta as diferenças culturais entre os países. Uma das principais está na culinária, que apesar de próxima, se torna diferente.

É o caso do pastel, que acabou sendo uma das comidas favoritas do casal. Na Argentina, há as empanadas. O chimarrão também foi outra descoberta. Os argentinos têm o costume de tomar o mate com uma erva diferente, com mais folhas. Já a erva-mate brasileira é mais moída, o que é um diferencial para os argentinos. “Várias comidas que não conhecíamos e aqui tem que provar. Provamos várias coisas que gostamos e outras que não”, conta Walter.

A situação econômica é outro fator que chamou a atenção. Com uma economia instável, os argentinos se surpreenderam com a possibilidade de fazer negócios no Brasil. “Nós tínhamos quatro anos de empresa e era cada vez mais difícil. Não se podia avançar. Nós tínhamos empregados, funcionários. E tinha que demitir de vez em quando uma pessoa porque mais tempo passava, mais difícil era. Eu noto que Brasil uma economia mais avançada. Se você trabalhar, você avança”, disse.

A língua também foi um desafio. Apesar de ser próximo ao espanhol, foi difícil compreender incialmente. “Para nós era muito difícil. Eu não entendia nada. Depois, tranquilo, fui me animando mais e a agora entendo bem e falo um pouquinho também”, conta Walter.

Walter conta que o objetivo final é ir até o Alasca, mas que a intenção é conhecer todos os países da América Latina aos poucos, podendo ver as diferenças culturais e econômicas de cada nação. “Alasca é o Norte de tudo, mas queremos conhecer todos os países da América”, disse.

O casal compartilha a viagem no Instagram, pelo perfil @los.monk.

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