Doutora em educação faz críticas ao programa Aula Paraná

13 de abril de 2020 às 16h25m

Professora do Departamento de Pedagogia da Unicentro diz que houve uma “compreensão bastante equivocada” sobre o conceito de educação à distância

Em entreviata à Rádio Cultura de Guarapuava, a professora e doutora em educação Michelle Fernandes Lima fez críticas ao programa Aula Paraná. Foto: Divulgação Facebook

Paulo Henrique Sava, com informações da Rádio Cultura de Guarapuava

O governo do Paraná suspendeu as aulas em todas as escolas da rede estadual por tempo indeterminado durante a pandemia do novo Coronavírus. Para tentar amenizar o prejuízo dos alunos em relação ao conteúdo e evitar a perda do semestre, a Secretaria de Estado da Educação (SEED) instituiu o programa Aula Paraná. Neste sistema, as aulas são ministradas à distância para alunos do Ensino Fundamental (6º a 9º ano) e do Ensino Médio pela TV ou internet.

No entanto, ainda existem problemas a serem resolvidos para que o sistema esteja em pleno funcionamento. Em entrevista à Rádio Cultura de Guarapuava, a professora do curso de Pedagogia da Unicentro e doutora em educação Michelle Fernandes Lima, ressaltou a gravidade da situação da pandemia, que implica em mudanças em todos os setores. No entanto, ela afirma que está havendo uma “compreensão bastante equivocada do que é educação à distância, comumente utilizada em cursos técnicos e Ensino Superior”. 

“A experiência da EaD não está presente na educação básica, principalmente na rede pública. Neste contexto de suspensão das atividades presenciais, que não foi escolha do professor e nem da escola, mas um decreto estadual pontuou pela necessidade de evitar aglomerações, segundo recomendações do Ministério da Saúde. No Paraná, temos mais de 1 milhão de estudantes matriculados, e fica esta questão: o que fazer neste período? As aulas, como foram apresentadas no Paraná por meio de um aplicativo, com horários e tempo exagerado em tela do aluno e pelas condições econômicas em que se encontram as famílias, não são eficientes”, comentou. 

Críticas

Michelle acredita que é necessário que se ofereçam condições e formação adequadas para a efetivação das atividades não presenciais. Além disso, ela alerta que muitas famílias enfrentam dificuldades por conta da quarentena e sequer têm acesso aos meios tecnológicos (Internet e TV digital) para os alunos acessarem as aulas. “Há dados de que o acesso à internet e aparelhos tecnológicos não é total de jeito nenhum, e é importante que percebamos isto”, frisou. 

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB – Lei nº 9394/96) estabelece que os estudantes precisam ter 200 dias letivos e 800 horas mínimas de aula. Com a pandemia, o Governo Federal lançou a Medida Provisória 93/2020, que desobriga as escolas de cumprirem os 200 dias letivos, mas manteve a quantidade de horas/aula. Com isto, o Conselho Estadual de Educação do Paraná instituiu uma legislação específica para este período, ordenando o desenvolvimento de atividades escolares. A crítica da professora vem no sentido de que estas precisam “assegurar a qualidade e o acesso de todos os alunos a elas”. 

Outro ponto criticado por Michelle foi a falta de uma discussão sobre o Aula Paraná com as comunidades escolares, das quais fazem parte professores, funcionários, pais e alunos. 

“Da forma como foi colocado, na última segunda-feira, não houve tempo para as escolas fazerem isto. O aplicativo foi lançado, os professores e as escolas estão perdidos, há questões graves acontecendo dentro do aplicativo, como erotismo, palavrões e outras coisas. As aulas gravadas pecam muito na qualidade e apresentam um modelo de professor que não é o que o aluno tem em sala. Estas aulas não foram gravadas por professores que estão em sala de aula porque, esta semana, o Governo do Estado havia colocado 45 mil professores em licença compulsória e no outro dia mudou. Então, é complicado inclusive pela qualidade do conteúdo que os alunos estão assistindo”, criticou. 


Exposição de dados e falta de controle de conteúdo

Michelle aponta que o aplicativo expõe dados dos alunos e não tem sistema de controle de idade e do conteúdo das conversas no chat. Segundo a professora, durante a semana, vários prints foram divulgados envolvendo questões que ferem o que está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) e na Constituição Federal. 

Mesmo mantendo os alunos estudando em casa, na opinião da professora, a solução foi apresentada de forma improvisada. “Manter os alunos ativos cognitivamente é importante, mas esta solução é improvisada e pode acarretar muitas consequências porque não garante a qualidade e nem o acesso ao conteúdo”, finalizou. 

Posição do NRE de Irati sobre o Aula Paraná

Procurado pela nossa reportagem, o chefe do Núcleo Regional de Educação (NRE) de Irati, Marcelo Fabrício Chociai Komar, afirmou que o programa ainda está sendo implantado e que a SEED segue trabalhando para que o sistema esteja funcionando plenamente em breve. Ele explicou que os professores passarão por um curso preparatório e que os devidos encaminhamentos estão sendo feitos. A Secretaria deve divulgar as datas do curso nos próximos dias.

Sobre as denúncias feitas pela APP-Sindicato, Marcelo disse que a direção da SEED deve apresentar um posicionamento em breve. Ele não quis comentar sobre os outros problemas apontados pela professora Michelle na entrevista.

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