Durante a Semana Mundial do Aleitamento Materno, especialistas detalham os desafios do aleitamento e a importância do acompanhamento técnico precoce e da proteção emocional às mães / Por Marina Bendhack, com entrevista de Juarez Oliveira

Resumo
- O leite materno é o alimento mais completo para o bebê até os seis meses de vida, dispensando o uso de água, chás ou outros alimentos.
- O amparo familiar prático e emocional é indispensável para a saúde da mãe e do bebê.
- O projeto “Fono na Amamentação”, em Irati, promove avaliação fonoaudiológica logo após a alta hospitalar para instrução na amamentação.
A Semana Mundial do Aleitamento Materno é uma campanha global realizada anualmente de 1º a 7 de agosto para proteger, promover e apoiar a amamentação. No Brasil, a semana integra o mês do Agosto Dourado, instituído pela Lei nº 13.435/2017, que intensifica ações educativas sobre o tema. A amamentação é o primeiro passo para um desenvolvimento saudável, mas ela também exige orientação e acompanhamento. Em entrevista à Najuá, especialistas explicaram a importância do colostro, do apoio à mãe, da avaliação do bebê e do atendimento precoce após a alta hospitalar e apresentaram o projeto Fono na Amamentação, uma parceria da Secretaria de Saúde com a Unicentro.
Willidiane Tessari, enfermeira e diretora da Atenção Primária à Saúde de Irati, destaca que o aleitamento materno é uma prática muito benéfica tanto para a mãe quanto para o bebê. Contudo, é uma prática difícil e são precisas várias políticas públicas para ajudar as mães a amamentarem. A enfermeira explica que, nos primeiros seis meses de vida do bebê, ele não precisa de nenhum outro tipo de alimento além do leite materno. “O leite materno tem todos os nutrientes e vitaminas que a criança precisa para o seu crescimento e desenvolvimento. Ele é o alimento mais completo e fornece tudo o que precisa para o bebê. Não precisa dar água, chá, nem outro alimento. O leite materno é essencial para o crescimento e desenvolvimento da criança”, afirma Willidiane.
O colostro é o primeiro leite da mãe, aquele que o bebê mama em seus primeiros dias de vida e é produzido já a partir da 20ª semana de gestação, em pequena quantidade, informa Cristina Ide Fujinaga, fonoaudióloga e professora da Unicentro. “O bebê precisa de um boom de energia, de um boom de imunidade, ele precisa de um boom de ácidos, que chamamos de ácidos graxos, para que ele receba — a gente vulgarmente chama — de primeira vacina. Então, esse primeiro leite, o colostro, a mamãe já está produzindo. E é até importante que ela não fique estimulando para que o corpo não entenda assim: ‘Ué, chegou alguém aqui antes do tempo que eu não tô sabendo? Como é que alguém tá pedindo leite e esse bebê ainda tá aqui dentro?’. Não confunda o seu corpo, confia no seu processo, seu leite tá ali. E, claro, a hora que tiver, que o bebê nascer, não vá achando que você vai para a maternidade, e você vai apertar o seu peito e aquilo vai jorrar. Aquilo é só no Instagram, é só no Facebook, é só para chamar a atenção. No começo, a quantidade é pequena, mas acredite, esse leite é potente”, diz a fonoaudióloga.
O leite materno possui anticorpos, traz benefícios à imunidade do bebê, ajuda em seu desenvolvimento e na prevenção de doenças, diarreias e otites. Para a mãe, também traz benefícios na recuperação do útero e fortalece o vínculo com o bebê, além de ser um alimento sempre pronto, na temperatura certa.
A importância da rede de apoio na família é essencial para que a prática seja bem-sucedida, visto que amamentar não é fácil. As profissionais relatam que muitas mães chegam ao atendimento duvidando de sua capacidade de amamentação e relatando comentários, feitos dentro do próprio círculo social, que desestabilizaram sua confiança. “Em vez de você ficar dando palpite errado, leva um bolo gostoso pra ela. Leva uma coisa que ela gosta de comer. Ajuda ela passando uma roupa. Que isso é muito mais ser rede de apoio do que você querer ficar dando dicas das quais os profissionais de saúde estão muito mais capacitados e prontos para ajudar”, expressa Cristina.
A fonoaudióloga também alerta para o cuidado com as redes sociais no contexto do aleitamento materno. “Cuidado. A rede social é ótima, mas não se esqueçam, o que é mais importante é você confiar nessa rede profissional, que aqui em Irati temos essa dádiva de ter essa rede tão bem constituída, começando no pré-natal, depois na Santa Casa, depois no acompanhamento lá no Ambulatório de Puericultura”, assegura Cristina.
A amamentação acontece em duas pessoas; por isso, tanto mãe quanto bebê precisam ser avaliados. Há aspectos no bebê, como integridade da língua, bochecha e lábios, que podem dificultar a amamentação, explica a fonoaudióloga. “Às vezes, esse bebê pode ter alguma alteração que ninguém vai ver. Quem é que vai conseguir ver? A equipe de saúde. Então, por isso é importante que, quando você passa com um profissional, que esse profissional possa avaliar você, claro, é importante, mas, principalmente, avaliar o bebê. Porque, às vezes, é até uma coisa tão fácil de resolver”, afirma.
Quando a mãe possui pouco leite, o que pode acontecer, há várias técnicas que podem ajudar, conforta a fonoaudióloga. “Existem várias coisas que podem ser feitas, e isso inclui tanto questões mais técnicas, que a gente vai auxiliar as mamães a fazer manobras na mama, estimular essa mama. […] se é uma mama que já está machucada, já tem alguma questão, a gente também vai tentar reparar isso, não só a parte da fono, mas a parte da enfermagem, da pediatria. E, principalmente, a mãe tem que estar bem do ponto de vista físico e do ponto de vista psicológico”, alega Cristina.
Projeto Fono na Amamentação
O Projeto Fono na Amamentação é uma parceria da Secretaria de Saúde com o curso de Fonoaudiologia da Faculdade Unicentro, explica Willidiane. “A Cristina vai lá com as alunas e faz esse atendimento às mães e aos bebês que passam pela primeira consulta na pediatria. Então, todas as crianças aqui do nosso município têm essa avaliação com o pediatra no momento que eles vão tomar a primeira vacina, que é a BCG. Tomando essa vacina, eles passam pela avaliação do pediatra e, na sequência, pela avaliação do pessoal da Fono, que vão estar avaliando a mãe e o bebê nesse processo de amamentação, auxiliando na pega correta, avaliar se a criança está com alguma dificuldade para conseguir mamar”, descreve a enfermeira.
Independentemente de o parto ser pelo SUS ou particular, para participar do projeto o bebê precisa entrar na rede de saúde por meio da vacina, passar pela consulta com a pediatra e depois seguir para a fonoaudiologia, afirmou Cristina. “A gente faz todo um aspecto de observar a mãe, como é que está a produção, como é o peito dela. […] quando o bebezinho vai mamar num bico que é mais longo, vocês concordam comigo que é mais fácil dele conseguir abocanhar, porque o bico está dando uma pista. Mas, tem mamães que têm esse bico um pouquinho mais curto. […] Então, a gente avalia isso e ensina também para a mãe como que ela pode fazer para facilitar o bebê encontrar esse bico”, conta a fonoaudióloga.
“Em relação ao aspecto do bebê, o bebê já passou pela pediatra. Então, ela já viu toda uma questão de saúde mesmo do bebê, a presença de amarelão, por exemplo, da perda de peso. A gente vai investigar por que ele não mama. Nós fazemos tanto uma avaliação geral do bebê, quanto especialmente dessa questão mesmo da boquinha, da linguinha, do famoso frênulo lingual. Avaliamos tudo isso e como está acontecendo esse encaixe entre a boca do bebê e o peito da mãe. Então, às vezes, são coisas que para nós são simples, mas que para a mãe é impossível dela saber. Então, ela precisa desse apoio”, continua Cristina.
Depois da alta do hospital, de tomar a primeira vacina e de serem atendidos pelo projeto, a mãe e o bebê continuam sendo atendidos pela atenção primária à saúde, nas Unidades Básicas de Saúde, descreve Willidiane.“Após a alta, aí que vai tomar a primeira vacina, aí passa pela avaliação do pediatra, vai com os profissionais da Fono e o atendimento sequencial acontece nas unidades básicas de saúde, para nós garantirmos a continuidade desse cuidado. Para que […] o desenvolvimento do bebê seja um desenvolvimento saudável, com a garantia, durante esse acompanhamento, que a criança vai crescer bem. Também vamos promover esse aleitamento materno exclusivo até os seis meses e, depois, sobre a introdução alimentar. Dar orientações, nesse sentido, atualizar a caderneta vacinal, […] fortalecer ainda mais o vínculo familiar também”, explica a enfermeira.
O projeto será retomado na segunda quinzena de agosto na Unidade Básica de Saúde Ildefonso Zanetti.