Especialista alerta que maioria dos acidentes em trilhas pode ser evitada com planejamento e preparo

06 de agosto de 2026 às 22h30m

Após casos recentes registrados no Paraná, como a morte de uma fotógrafa em Sapopema e o resgate de um jovem no Pico Paraná, montanhista destaca a importância de respeitar as condições da natureza, utilizar equipamentos adequados e conhecer o percurso antes de iniciar qualquer aventura/Paulo Sava e Juarez Oliveira

Resumo: – Montanhista destacou que muitos acidentes acontecem por decisões equivocadas tomadas durante o percurso das trilhas;

  • Profissional diz que situação de fotógrafa encontrada morta poderia ter sido evitada;
  • Principal recomendação antes de iniciar qualquer trilha é consultar a previsão do tempo.

A morte da fotógrafa Ana Paula Silveira Cardoso durante uma trilha em Sapopema, no Norte Pioneiro do Paraná, e o resgate de um jovem no Pico Paraná, no início deste ano, reacenderam o debate sobre a segurança em atividades realizadas em montanhas e áreas de mata. Embora o turismo de natureza tenha conquistado cada vez mais adeptos, especialistas alertam que grande parte dos acidentes pode ser evitada com planejamento, equipamentos adequados e respeito aos limites da natureza.

Em entrevista, o montanhista e empresário Murilo de Lima, da agência Pé na Montanha, destacou que muitos acidentes acontecem por decisões equivocadas tomadas durante o percurso. Ao comentar o caso da fotógrafa, que morreu após ser arrastada pela correnteza durante a travessia de um rio, ele afirmou que a situação poderia ter sido evitada. “Na verdade, esse foi um acidente causado por um descuido. Elas não deveriam ter enfrentado aquela travessia. O local possui cordas para auxiliar na passagem, mas isso quando o rio está baixo. Possivelmente ele estava muito cheio e elas acabaram arriscando a própria vida”, afirmou.

Segundo Murilo, em diversos parques estaduais o acesso é restringido quando as condições climáticas representam risco aos visitantes. Além disso, ele reforçou que nunca se deve subestimar a força da natureza. O montanhista explica que a principal recomendação antes de qualquer trilha é consultar a previsão do tempo. Segundo ele, essa é uma regra básica seguida inclusive pela empresa que coordena. “Primeiro de tudo, a pessoa deve olhar a previsão do tempo. Essa é a primeira regra de segurança. Na nossa agência, antes de realizar qualquer atividade, nós analisamos as condições climáticas. Já ficamos até dois meses sem realizar uma trilha porque a previsão não permitia”, comentou.

Murilo lembra que, principalmente no verão, chuvas repentinas podem provocar as chamadas “cabeças d’água”, aumentando rapidamente o nível dos rios e tornando travessias extremamente perigosas. “A natureza é implacável. Se você não respeitar, ela vai cobrar esse erro”, frisou.

O entrevistado citou o caso da fotógrafa Ana Paula, cuja amiga relatou que o nível do rio estava cerca de 40 centímetros acima do normal no momento da travessia. “Com o rio completamente cheio, você não pode querer dar uma de aventureiro. É justamente nessas situações que acontecem as tragédias”, destacou.

Pesquisar a trilha faz toda a diferença

Outro erro frequente, segundo Murilo, é acreditar que uma trilha famosa seja necessariamente fácil. “Já aconteceu de pessoas perguntarem se tinha banheiro químico na montanha. Isso mostra que elas nem sabem para onde estão indo”, comentou.
Por isso, ele recomenda pesquisar previamente o percurso utilizando vídeos, redes sociais e aplicativos especializados. “Hoje existem muitas informações na internet. Quando a pessoa decide não contratar um guia ou uma empresa de turismo de aventura, ela precisa estudar a trilha, conhecer o percurso e entender o grau de dificuldade”, pontuou.

Entre os aplicativos recomendados estão o Wikiloc e o Trackloc, que permitem baixar mapas off-line e alertam quando o usuário sai da rota correta. “A versão premium permite baixar o mapa para usar sem internet. Se você sair da trilha, o aplicativo avisa imediatamente”, pontuou.

Murilo também destaca a importância do uso de equipamentos corretos. “O ideal é utilizar uma bota de cano médio, bem ajustada, porque ela protege o tornozelo. Se a pessoa virar o pé, a chance de uma lesão grave é muito menor”, comentou. Além do calçado, ele recomenda levar água suficiente, alimentos energéticos, bebidas isotônicas e um kit básico de primeiros socorros. “Sempre carregue bandagem, gaze, remédio para dor e, quem utiliza medicamentos controlados, jamais deve esquecê-los”, afirmou. Segundo o montanhista, manter o organismo hidratado e com reposição de sais minerais também ajuda a evitar problemas durante percursos mais longos.

Outro conselho reforçado durante a entrevista é evitar trilhas solitárias. “Em hipótese alguma vá sozinho. Mesmo nós, que temos experiência, sempre procuramos um parceiro”, frisou. Caso a pessoa opte por realizar a atividade sem uma agência, Murilo recomenda informar familiares ou amigos sobre o destino e o horário previsto para retorno. “Se não tiver família por perto, avise um amigo. Alguém precisa saber onde você está”, ressaltou.

Para quem costuma realizar trilhas em locais isolados, ele ainda recomenda equipamentos com rastreamento por GPS e botão de emergência. “Hoje existem aparelhos que permitem enviar sua localização em caso de acidente. Isso pode fazer toda a diferença em um resgate”, comentou.

Como agir em caso de acidente

Se ocorrer algum acidente durante a trilha, Murilo orienta que a primeira atitude é manter a calma. “Se a pessoa torceu o pé ou suspeita de uma fratura, o ideal é não continuar caminhando”, pontuou. Segundo ele, enquanto um integrante permanece com a vítima, outro deve buscar um local com sinal de celular para acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193. “É importante manter a pessoa aquecida, utilizando manta térmica ou saco de emergência, até a chegada do resgate”, comentou.

Murilo explicou que cada trilha exige um nível diferente de preparo físico e experiência. Na agência Pé na Montanha, os participantes respondem previamente a um formulário sobre condicionamento físico, histórico de trilhas e eventuais problemas de saúde. “A pessoa sedentária pode fazer trilhas, mas deve começar pelas mais fáceis. Não adianta querer estrear logo no Pico Paraná”, destacou.

Segundo ele, a empresa também avalia o histórico de atividades físicas do participante antes de autorizar a participação em percursos mais exigentes. “Muita gente quer começar justamente pela trilha mais difícil. O ideal é evoluir aos poucos”, frisou.

Trilhas

Entre as trilhas mais desafiadoras do Paraná, Murilo destacou o Pico Siririca, que classificou como o “K2 paranaense”, devido ao alto grau de dificuldade, mata fechada e longos trechos de subida e descida. Outro percurso citado foi o Conjunto Marumbi, conhecido pelas vias ferratas — escadas metálicas fixadas na rocha.”Essas trilhas não são recomendadas para pessoas com medo de altura ou labirintite. O grau de dificuldade é muito elevado”, comentou.

Apesar dos desafios existentes nas montanhas, Murilo ressalta que também há opções para famílias e crianças. Segundo ele, a proposta da agência é aproximar cada vez mais as pessoas da natureza, oferecendo roteiros com diferentes níveis de dificuldade. “A gente quer que as crianças cresçam inseridas nesse ambiente. Essa conexão com a natureza faz muito bem”, frisou o montanhista.

Ele lembra que diversos estudos demonstram benefícios físicos e emocionais proporcionados pelo contato com ambientes naturais. “Não é apenas subir uma montanha. A beleza está no caminho, no desafio pessoal e na experiência de estar em contato com a natureza. O nascer ou o pôr do sol acaba sendo apenas a cereja do bolo”, finalizou.

Este site usa cookies para proporcionar a você a melhor experiência possível. Esses cookies são utilizados para análise e aprimoramento contínuo. Clique em "Entendi e aceito" se concorda com nossos termos.