Livro “Os Contos por Trás do Ipê Amarelo” relembra a trajetória de Danielle Menon no combate ao câncer/Texto de Karin Franco, com entrevista de Juarez Oliveira

Há batalhas que deixam cicatrizes. Outras deixam ensinamentos. Algumas, mesmo após o fim, continuam ecoando nas lembranças de quem permaneceu para contar a história. Foi dessa combinação de memória, amor e saudade que nasceu uma história que agora ganha forma de livro. A obra “Os Contos por Trás do Ipê Amarelo”, Rafael Ruteski, reúne contos que lembram a trajetória de sua esposa, Danielle Menon, no combate ao câncer.
O escritor destaca que o livro nasceu das conversas entre ele e sua esposa no trajeto para o tratamento de câncer. “Quando a minha esposa descobriu que ela estava com câncer e os tratamentos iniciaram, as viagens eram para Curitiba. Ao longo das viagens, nós conversávamos como é difícil você receber primeiro um diagnóstico desse e depois como que é a necessidade de você ter coragem para você enfrentar toda essa batalha. Principalmente, porque era logo no fim da pandemia, então as coisas eram um pouco difíceis, nós usávamos máscara, o deslocamento era difícil, a coisa era um pouco mais difícil do que é normalmente”, disse.
Foi nas lembranças dessas conversas que Rafael lembrou de um dos pedidos da sua esposa. “Depois que, infelizmente, ela veio a falecer, eu lembrei de algumas conversas que nós tivemos nas viagens, que eram semanais para Curitiba. Certo dia, ela falou para mim: ‘A minha necessidade é contar minha história para todo mundo para que isso possa servir de superação e, principalmente, ter coragem para as pessoas encarar essa situação que não é fácil’”, conta.
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O livro nasceu da necessidade de mostrar mais de perto a batalha contra o câncer. “Em outro certo momento também, por muitas vezes, fazia a quimioterapia, como todas as pessoas e muitas pessoas tinham dificuldades, pessoas que vinham de madrugada, que enfrentavam o frio, que enfrentava um ônibus, o cotidiano de todo mundo que tem que se deslocar até Curitiba fazer esse tratamento. Ela falou: ‘Rafael, nós temos que pensar alguma coisa para ajudar essas pessoas’.
Ao longo do tempo, depois que, infelizmente, ela partiu, eu pensei: ‘Puxa vida porque não juntar o útil e o agradável? Se ela queria contar a história dela para ajudar as pessoas e ela, infelizmente, não conseguiu, eu posso fazer isso’. Disso eu comecei a relembrar as histórias, como foram desde o começo desde do diagnóstico, depois do dia a dia, como fazer, como as coisas aconteciam, como é lá. Foi esse cenário”, explica.
O livro começou como um projeto pessoal. “Aos poucos eu comecei relatando, inicialmente era só para ter isso guardado para mim, eu também não queria esquecer como que as coisas foram, porque, infelizmente, a gente esquece. Como não queria esquecer isso, fui escrevendo e, aos poucos, tanto que as pessoas que leem o livro, que porventura venham ler o livro, vão ver que as narrativas os nomes são trocados. A Daniela tem um outro nome em determinado conto, os filhos tem outros nomes, eu tenho um outro personagem, os personagens vão trocando os nomes de acordo com cada um dos contos”, relata.
A ideia de contar essa história por meio de contos surgiu da intenção de mostrar pequenos fragmentos da trajetória da sua esposa. “O processo, desde o primeiro momento, eu pensei em contos. O conto é porque a ideia era contar os pequenos fragmentos da história. Não era para ser uma história contínua porque não era para ter uma característica de biografia, era para contar justamente aquelas situações que eram de lutas e de coragem ao longo de todo tratamento. A ideia inicial era para ser conto mesmo. O conto tem por característica ter personagem, tem começo, meio e fim, ele já tem uma característica de ser mais rápido e, principalmente, porque a ideia não era para ser biografia, era para ser apenas um recorte daquele momento”, explica.
Ao todo, o livro reúne 54 contos que relembram os sentimentos, ações e vivências durante o tratamento. O título e a capa do livro também remetem a um momento pessoal. O ipê amarelo era uma das árvores que Danielle mais gostava. Foi plantada em frente à casa do casal a cerca de 20 anos e sempre estava florida no dia 6 de setembro, aniversário de Danielle.
“Por conta disso, dela sempre dizer: ‘Olha, no meu aniversário’, ela tirava uma foto na frente do ipê amarelo. ‘Ele floresceu para mim’. Ela gostava muito desse ipê. O ipê, curiosamente, foi plantado justamente logo que nós compramos a casa, quando é o início de vida, que você está buscando construir a sua vida. Você comprou a tua casa, veio o financiamento, muitas prestações. Conforme caminhava as prestações, o ipê crescia e atrás daquele ipê foi construído uma vida. Vieram os filhos, veio tudo que a vida acaba se remontando e, por fim, aquele ipê acabou presenciando tudo do início ao fim”, disse.
Para Rafael, ver essa história registrada em livro traz sentimentos ambíguos. “É uma obra que você, no sentido literário ou da literatura, é algo muito prazeroso. É algo muito prazeroso você receber isso, mas ao mesmo tempo também, você acabar revisitando isso. Ao mesmo tempo, essas histórias, a gente acaba voltando no tempo em algumas situações que não foram muito agradáveis. São daquelas situações que mudam a vida da gente. Você tem uma vida antes e uma vida depois de tudo que aconteceu”, comenta.
Esses sentimentos podem ser vistos em seus dois filhos que tem lidado de formas diferentes diante da obra. “O meu filho mais velho tem 11 [anos], minha filha mais nova tem 7 anos. O mais velho, começou a ler o livro e chora um pouquinho. A mais nova já gosta, encara e conta para os amiguinhos na escola. ‘Olha, o nosso livro’. Fala o ‘nosso livro’. Isso é materialização de sentimentos de uma vida, de um certo tempo, que nós tivemos. Mas é uma sensação diferente”, destaca.
O escritor conta que ter passado por essa experiência o transformou. “O tratamento durou, do diagnóstico até o falecimento dela, infelizmente foi apenas um ano. Enquanto isso aconteceu, era toda semana entre exames, exames de imagem, tratamento, quimioterapia, enfim, todo o processo. Nesse caminho, você acaba conhecendo pessoas e entendendo pessoas.
Eu, principalmente, sempre era uma pessoa muito imediatista. Meus filhos ficavam doentes, eu corria no médico. Já falava: ‘Vamos dar o tratamento mais forte, antibiótico, vamos cuidar, sarar disso o quanto antes’. Quando você tem o diagnóstico de câncer, você sabe que o tratamento é muito mais lento. Então, você acaba tendo que ter muito mais paciência, tem que ser muito mais resiliente nesse processo. Acaba que as coisas não são no seu tempo ou no nosso tempo. As coisas são no tempo que tem que ser, são no tempo de Deus. É Deus que acaba trazendo esse processo”, explica.
Uma das principais mudanças foi na espiritualidade. “Ao longo desse um ano, eu fui uma pessoa que me espiritualizei muito mais. Eu tenho uma fé, obviamente, tenho uma religião que eu acredito, mas antes do tratamento, meu foco era muito mais no trabalho, na vida, no dia a dia. Cuidava muito do meu trabalho, das minhas coisas, mas acabava que a minha religião eu tinha, mas eu não era tão espiritualizado. Depois de tudo isso, eu me espiritualizei muito mais, eu me dediquei a coisas mais pequenas que no dia a dia, acabam não fazendo parte do dia a dia. Como você parar para aproveitar o tempo melhor com a família, o tempo um pouco melhor com os filhos, as coisas que você acaba fazendo”, conta.
Serviço
O livro está sendo vendido a R$ 50 e pode ser adquirido no Sebo Centenário, ao lado do Clube do Comércio, na farmácia Farmais (onde Daniielle trabalhava) e também por meio do telefone (42) 9 9994-4394 (WhatsApp).
Todo o dinheiro arrecadado com o livro será revertido para a Rede Feminina de Combate ao Câncer. “Essas mulheres são fantásticas. Elas fazem um trabalho fenomenal, principalmente de acolhimento, de conversa, de percepção, porque a palavra cura e a pessoa que está fazendo o tratamento, só falta poder conversar, de contar um pouquinho da história, já deixa o fardo um pouquinho mais leve. As meninas da Rede Feminina, assim como da Anapci [Associação do Núcleo de Apoio ao Portador de Câncer de Irati], prestam um trabalho que é fantástico”, disse.