Conselho da Comunidade de Irati realiza ações durante a Semana de Justiça pela Paz em Casa

17 de agosto de 2023 às 19h31m

Programação acontece até sábado (19) e envolve palestras, oficinas e panfletagem sobre formas de denunciar violência doméstica/Texto de Karin Franco, com reportagem de Juarez Oliveira e Rodrigo Zub

Vice-presidente do Conselho da Comunidade de Irati, Carla Mosele, e a assistente social, Maria Helena Orreda, que também integra o Conselho da Comunidade, falaram sobre as atividades da Semana de Justiça pela Paz em Casa durante entrevista na Rádio Najuá. Foto: João Geraldo Mitz (Magoo)

O Conselho da Comunidade de Irati, com apoio de algumas entidades do município, promove até sábado (19) ações durante a Semana de Justiça pela Paz em Casa. São atividades que buscam conscientizar sobre a violência doméstica, contra mulheres e outros tipos de violência, que geram desrespeito aos direitos humanos, discriminação, intolerância e exclusão.

A Semana de Justiça pela Paz em Casa começou a ser realizada no País em 2015 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) como uma forma de sensibilizar a sociedade sobre a violência contra a mulher. “Vem com o objetivo de promover ações para sensibilizar a nossa sociedade em relação a todos os tipos de violência. No começo, era direcionada mais para a violência contra a mulher, mas depois tomou um corpo maior aonde que toda questão de violência seja revista, alertada”, explica a vice-presidente do Conselho da Comunidade, Carla Mosele.

A extensão da campanha para outros tipos de violência ocorre porque a violência contra a mulher também atinge outras pessoas da família. “Nós sabemos que a violência doméstica que abrange a mulher acaba abrangendo também a família como um todo. São os filhos, os idosos que moram dentro de casa, todos aqueles que estão de alguma forma sofrendo com essa violência”, conta a Assistente Social, Maria Helena Orreda, que também atua no Conselho da Comunidade.

As ações buscam trazer conscientização e prevenção da violência. “Muitas vezes, a mulher está sofrendo violência e não tem coragem de sair daquela situação que ela está vivendo. Ela precisa que as pessoas possam auxiliar, ter órgãos que possam estar ouvindo, possam estar ajudando. Em meio a toda essa situação de conflito, que a sociedade vem enfrentando, essa semana tem a questão de direcionar a uma sociedade mais igualitária, que as pessoas se respeitem”, disse Carla.

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Além de atividades que incluem palestras e oficinas, a campanha tem o objetivo de estimular ações dentro do sistema judicial, segundo Maria Helena. “O Conselho Nacional de Justiça propõe que os juízes no Brasil inteiro realizem audiências concentradas e agilizem todos os processos relativos à violência contra a mulher nesse período. Enquanto isso, dentro dos fóruns, dos ambientes da Justiça, eles trabalhando com os processos para agilizar a parte jurídica dos processos, os Conselhos da Comunidade ficaram com a incumbência de chamar a sociedade para trabalhar com a sociedade a divulgação da importância da prevenção da violência doméstica e contra a mulher”, comenta.

A programação em Irati iniciou na segunda-feira (14) com a publicação de vídeos orientativos nas redes sociais e a abertura das atividades.

Já na manhã de terça-feira (15), as atividades se concentraram com as turmas de Ensino Médio do Colégio São Vicente. Durante a manhã, os alunos assistiram uma palestra com a pedagoga do Conselho, Jaline Gura Filipaki, e a estagiária do curso de Letras da Unicdentro, Bruna Faustino Padilha Mendes, sobre violência doméstica, familiar e contra a mulher. A atividade ainda teve a participação de representantes do projeto de extensão da Unicentro “Prevenção a violência contra as mulheres: uma visão socioambiental visando o empoderamento feminino”.

O trabalho de conscientização dos jovens busca prevenir a violência na escola e acontece após a mudança na lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que incluiu a prevenção de violência contra a mulher nos currículos da Educação Básica. “É bem interessante porque, justamente na perspectiva de trabalhar com os adolescentes para ir criando uma nova cultura de relacionamentos, familiares e também de homens e mulheres. Não só isso, mas também atendendo um dispositivo legal. Existe uma lei específica que fala sobre a importância desse trabalho no âmbito da educação”, conta Maria Helena.

Carla defende a importância de trabalhar esse conteúdo com os adolescentes. “O conteúdo relativo aos direitos humanos é uma prevenção de todas as formas de violências, contra a criança, adolescente, à mulher. Isso vai na educação, ou seja, tanto no Estado, quanto no município, ela vai permear entre os temas que chamam de temas transversais, que são temas como a questão afro, meio ambiente, que isso são temas hoje que tem que ter no mês tal, eles falam sobre cada tema. Isso vai fazer parte do currículo na escola”, explica.

A programação da Semana de Justiça pela Paz em Casa seguiu com uma atividade na noite de terça-feira com o grupo reflexivo “Repensar”. O grupo reúne homens que estão respondendo a algum processo de violência contra a mulher e tem a determinação judicial de participar do grupo.

A partir de metodologias desenvolvidas pelo Tribunal de Justiça, o grupo busca conscientizar esses homens dos crimes que eles cometeram. “É uma oportunidade para que esses homens possam, a partir do grupo, repensar suas atitudes. São vários temas que são debatidos, desde família, saúde do homem, saúde mental, uso de drogas, mas também os comportamentos, que vem muito culturalmente impostos, trazidos através de outras gerações pelo patriarcado. São muitas questões discutidas a nível social, cultural, padrões de conduta que muitas vezes o homem reproduz e muitas vezes ele nem sabe porque está reproduzindo. Só depois acaba sofrendo as consequências desta reprodução”, disse a Assistente Social.

Ao todo, os homens participam de oito encontros no grupo reflexivo. Para Maria Helena, o grupo tem dado resultados positivos. “Dos homens que participaram do grupo, até o momento, nós não tivemos nenhuma reincidência. Isso nos deixa muito felizes, que o grupo tem dado um bom resultado. É sinal de que realmente houve um reflexo positivo na vida dessas pessoas”, disse.

A programação prosseguiu nesta quinta-feira (17) na cadeia pública de Irati, com uma aula sobre a violência doméstica e familiar contra a mulher com presos que participam das aulas de alfabetização. “O Conselho da Comunidade tem como objetivo principal dar assistência a pessoas que de alguma forma estão pagando a pena. No caso, eles estão em privação de liberdade. Mas que em breve ou a seu tempo, irão sair da do ambiente prisional e vão voltar para a sociedade, principalmente para suas famílias. Compete ao conselho fazer esse trabalho e aproveitando a semana de reflexão sobre a questão da violência, é uma oportunidade de levar uma prática educativa reflexiva também para dentro do ambiente prisional”, explica Maria Helena.

Hoje também foi realizada uma oficina reflexiva na Unicentro. A atividade foi voltada para toda a comunidade e tratou sobre violência doméstica e familiar com conversão e reflexão acerca da construção da paz em casa. A programação teve participação de alunos do Colégio Estadual Trajano Grácia e do 4º Ano de Psicologia da Unicentro. O evento é organizado pelo projeto de extensão da Unicentro de “Prevenção a violência contra as mulheres: uma visão socioambiental visando o empoderamento feminino”.

No sábado (19), a partir das 10 h, o Conselho da Comunidade irá realizar uma série de atividades da rua Doutor Munhoz da Rocha, em Irati. Entre as atividades estão panfletagem, dinâmica do abraço, mensagens motivacionais, apresentações artísticas e divulgação de cartazes nos banheiros dos estabelecimentos públicos.

Os cartazes possuem um QR Code que direciona para um link da Polícia Civil onde as mulheres podem fazer uma denúncia de violência. “Ali ela já pode fazer a ocorrência dela, ela já pode denunciar, ela pode fazer o que ela quiser, dentro do banheiro sem ninguém ver. Ela mesmo pode fazer a denúncia, pode dizer o que ela está sofrendo. É um cartaz que vai ajudar a mulher a sair dessa prisão da violência, que muitas vezes ela não tem aonde falar, ela não tem como sinalizar. Aqui, ela vai ter esse cartaz, aonde que ela vai acionar o QR Code, vai poder ir direto nesse link e está entrando para fazer a denúncia para poder falar o que está afligindo ela, o que ela está sofrendo”, conta Carla.

Ainda na tarde de sábado (17), o Conselho da Comunidade também realiza uma programação no Projeto Justiça e Cidadania, onde realizará o Círculo de Justiça Restaurativa.

A programação envolverá cerca de 25 pessoas que estão sendo acompanhadas pelo sistema de Justiça. Participam do grupo pessoas que são processadas judicialmente em diversos crimes, como da Lei Maria da Penha, violência de trânsito e patrimônio público. A participação no grupo também é uma determinação do juiz para o cumprimento da pena.

Segundo Maria Helena, o grupo propõe que se trate de assuntos que ajudem as pessoas a refletirem sobre os crimes. “O objetivo nosso não é só que a pessoa compareça, de corpo presente, cumprindo a pena. Ele tem que aproveitar esse dia para que ele possa sair de lá com uma reflexão sobre variadas questões, principalmente relacionadas à violência que nós vamos abordar que é sobre os assuntos nominados e dando também vasão à questão da violência contra a mulher”, disse.

Na dinâmica, a proposta é discutir as experiências das pessoas em grupo. “Conforme vai fluindo o círculo, a conversa, as perguntas, quando você vê está falando todas as áreas da tua vida que você tem problema e que você não consegue falar. Os problemas mais cabeludos da tua vida, você acaba tendo facilidade de colocar ali porque você vê que o colega do teu lado também tem dificuldades, que ele teve problemas lá na infância e ele vai colocar ali. É um instrumento de trabalhar, que faz você ir lá no começo do gatilho. Qual é o gatilho que te impulsiona você ser violento? O que faz você agredir o outro?”, conta Carla.

A campanha também busca conscientizar sobre as formas de denúncias de violências domésticas. Em Irati, é possível denunciar pelo telefone por meio do Disque Denúncia 180, para a Polícia Militar no 190, para a Guarda Municipal no 153 e para a Patrulha Maria da Penha no (42) 3132-6222.

A mulher que passa por violência doméstica também pode buscar auxílio no Núcleo de Estudo Maria da Penha (Numape) da Unicentro, que dá apoio às mulheres que sofrem violência. O telefone é (42) 9 9904-1423. Ainda é possível buscar ajuda no Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), pelos telefones (42) 3132-6289 ou (42) 9 9134-3852. “É importante que as mulheres busquem referência nos órgãos de proteção à mulher porque, além de tirar uma dúvida, elas podem também receber apoio e outros serviços que auxiliam ela no momento que ela está passando”, alerta Maria Helena.

A programação da Semana de Justiça pela Paz em Casa é uma realização do Conselho da Comunidade de Irati, em parceria com a Faculdade São Vicente/Uniguairacá, CEEBJA, Observatório Social, SASE, Conselho sobre Drogas, Lions, Unicentro e Núcleo Regional de Educação de Irati, com o apoio da Federação dos Conselhos da Comunidade do Paraná (Feccompar) – e da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça do Paraná (CEVID-TJ/PR).

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