Em entrevista à Najuá, representantes da secretaria de Assistência Social falaram sobre os trabalhos realizados na Casa de Apoio, Abordagem Social e Casa de Passagem/Texto de Karin Franco, com reportagem de Juarez Oliveira

O município de Irati possui uma casa de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica. Além disso, o espaço é um dos poucos do estado que possui uma vaga para mulheres de outras regiões.
A casa de apoio faz parte dos serviços da Secretaria de Assistência Social que possui uma equipe para atender a Casa de Apoio, o Serviço de Abordagem Social e a Casa de Passagem. A equipe é formada por uma pedagoga, uma assistente social, psicólogo, um técnico de nível superior e um motorista. A equipe atende nos chamados equipamentos, que são os espaços e serviços que auxiliam a vítima. Entre os equipamentos estão a Casa de Apoio, o Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas) e o Centro de Referência em Assistência Social (Cras).
No caso de mulheres vítimas de violência doméstica, o primeiro atendimento pode vir de autoridades de segurança ou do Creas. “Geralmente o primeiro contato que vem para nós, geralmente pela PM [Polícia Militar], pela Guarda Municipal. Algumas vão até o Creas, mas geralmente o primeiro contato é pela PM mesmo”, disse a pedagoga do Serviço de Abordagem Social, Saionara Israelita Franco.
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Após serem encaminhadas ao Serviço de Abordagem Social, a mulher vítima de violência doméstica passa a ser atendida e pode ser acolhida à Casa de Apoio. “A Casa de Apoio atende as mulheres em situação de violência. Aquelas mulheres que sofrem a violência, fazemos todo um trabalho com elas, leva a realizar o BO [Boletim de Ocorrência], a partir das 17 horas, quando nós que atendemos, faz a medida protetiva. Muitas delas, quando não tem familiar, quando não tem onde ficar, nós acolhemos na nossa Casa de Apoio à mulher vítima de violência”, explica a assistente social e coordenadora do serviço de abordagem social, Somaya Reda.
Durante o período que a mulher está nesta Casa de Apoio, ela recebe suporte para recomeçar. “Elas ficam acolhidas, por um período na nossa casa. Não tem um período específico porque precisamos fazer um trabalho com essa mulher. Principalmente, se ela não tiver família. Precisamos inserir ela no mercado de trabalho, precisa dar um suporte para ela, para que ela possa ser desacolhida. Quando há familiares, fazemos o trabalho de fortalecimento de vínculos para que ela possa retornar para família”, conta Somaya.
Saionara explica que em muitos casos, as mulheres não querem voltar às suas famílias logo após a violência. “Muitas, mesmo tendo os familiares, de início, quando elas sofrem a violência, elas têm medo de ir para casa desses familiares por conta do agressor, que sabe onde os familiares moram. Às vezes, tem acolhimento de dois, três dias, até sair a medida protetiva, até elas se sentirem seguras para ir para casa desses familiares. Acolhemos a mulher, acolhe filhos, muitas vezes delas, que geralmente elas sempre vêm com filhos”, explica.
O trabalho realizado durante esse período de acolhimento inclui também um serviço voltado aos filhos dessa mulher. “A Sayonara, enquanto pedagoga, ela consegue matricular as crianças na escola para eles não perderem o ano. Fazemos um trabalho na Saúde com a mulher. Levamos na Saúde Mental, Saúde da Mulher. Fazemos currículos, leva elas para distribuir currículos, entrevista de emprego. Tem os atendimentos com a equipe também. O fortalecimento de vínculo. É feito todo um trabalho com elas para que elas possam ser inseridas de volta na sociedade e viver tranquilamente, sem sofrer a violência”, conta a coordenadora.
A Casa de Apoio ainda conta com uma vaga regionalizada, que é ocupada por vítimas de violência de outros lugares do estado. O Estado entra em contato com o município e quando há vaga, a equipe de Irati acolhe a vítima, dentro do trabalho de rede municipal, com auxílio do município de origem da vítima. “A nossa casa conta com uma vaga regionalizada. Ficamos bem orgulhosos porque não são todas as cidades que têm. São poucas as cidades. Não sei se é cinco ou seis, no estado do Paraná, que tem essa vaga regionalizada. Temos uma parceria com o Estado e recebemos mulheres de fora. É uma vaga. Já recebemos mulheres de Arapoti, de Imbituva, de Rebouças. de longe mesmo. É um trabalho feito com o Estado e recebemos essa mulher, com os filhos, se tiver”, explica Somaya.
Normalmente, as vagas na Casa de Apoio de Irati estão sempre preenchidas, incluindo a vaga regionalizada. “A nossa casa sempre está com a vaga preenchida. Só que não tem uma demanda muito grande, por conta dos outros equipamentos, por conta de o Creas realizar o atendimento porque no Creas conta com a psicóloga, com assistente social e por eles fazerem esse primeiro atendimento, que também fazem essa questão do fortalecimento de vínculos, que daí a nossa casa – porque tem o número de vagas – porque senão tivesse esse atendimento do Creas, acho que ela estaria superlotada”, disse a pedagoga.
A coordenadora destaca que o acolhimento é feito em último caso e a procura é manter o vínculo da vítima com a família de origem. “Costumamos dizer que o acolhimento é em último caso até por conta de todas as condições que se faz em um acolhimento. O Creas presta esse suporte, tem os atendimentos. Entendemos que o acolhimento é a última opção. Mas, a nossa casa sempre está cheia”, afirma.
A Casa de Apoio faz parte de uma rede de atendimento às vítimas de violência doméstica que reúne diversos órgãos em Irati para atender os casos. Entre os órgãos estão Polícia Militar, Guarda Municipal, Patrulha Maria da Penha, secretaria da Saúde, por meio da Saúde Mental, Secretaria de Assistência Social, Creas e Cras. Entretanto, Saionara destaca que há situações que não chegam aos órgãos, o que dificulta o atendimento. “Há casos e casos que acontecem. Às vezes, há caso de violência que ocorre a fatalidade, mas muitas vezes esses casos não chegam até nós na Assistência, até nós, enquanto Casa de Apoio, até a PM mesmo”, conta.
A Rede de Apoio atende todas as situações em que há uma violência doméstica contra a mulher. Além da violência física, a rede atua em casos que envolvem violência psicológica, violência moral e violência patrimonial. “Muitas ainda acham que a violência somente é a física, que elas estão passando por situações, mas é aquela coisa: o agressor não chegou a me agredir, então não houve a violência. Se há violência psicológica, a violência verbal, a violência moral, nos procurem. Procurem o Creas, para darmos esse apoio porque como falamos, não é só a física. Tem várias e várias violências”, explica Somaya.
Um dos principais motivos para a denúncia é a possibilidade de um tipo de violência evoluir para outra situação. “Quando eles estão coagindo a mulher, quando eles estão fazendo a violência psicológica e a mulher não consegue entender que ela está sofrendo essa violência. Ela não tem aquele olhar porque elas acham que é somente a agressão. A partir daquele momento, elas já estão sofrendo violência. Elas já estão num ambiente violento, mas elas não enxergam. Começa as agressões verbais, as psicológicas, de repente veio empurrão, de repente vem um puxão de cabelo e parte para coisas piores”, conta a coordenadora.
A violência contra a mulher pode ocorrer por outros pessoas, além do companheiro agressor. “Não é somente o agressor, o companheiro, mas violência doméstica por conta de filho, de nora, de netos. Muitos acham que atendemos só a violência contra a mulher pelo agressor. Não. São vários tipos de violência que estão acontecendo. Talvez por conta da pandemia que tivemos, então está vindo mais casos agora, coisas que aconteceram lá, que ficou lá e que agora, falamos que está estourando. Mas, atendemos todos os tipos de violência”, explica Saionara.
O Serviço de Abordagem também realiza todo o processo de forma sigilosa. “Prezamos pela ética profissional. O Código de Ética do Serviço Social, da Assistente Social, preza pelo sigilo. Não podemos divulgar os atendimentos que fazemos. É sigiloso sim. Até por conta, primeiro pela ética profissional, de todo mundo que tem que ter, pelo equipamento sigiloso. Não fornecemos prontuários de acolhidos também. Mas, também, por ser uma casa de segurança, então não ficamos comentando, espalhando, falando onde está, porque como entendemos que é um acolhimento de segurança, ninguém pode saber o que está acontecendo. Nem endereço, nada”, conta.
Além do acolhimento do Serviço de Abordagem Social, a mulher que sai da Casa de Apoio ainda conta com um acompanhamento de seis meses pelos profissionais, para auxiliar nesse recomeço. O Serviço de Abordagem Social ainda realiza um trabalho com pessoas em situação de rua. “Fazemos um trabalho com as mulheres em situação de rua acolhemos algumas mulheres na nossa Casa de Passagem. O trabalho com mulher na assistência não fica só na violência. Temos mais tipos de trabalhos que fazemos como essas mulheres”, explica Somaya.
As mulheres em situação de rua são abrigadas na Casa de Passagem. “Temos mulheres em situação de rua que é fornecido a Casa de Passagem quando elas querem. A alimentação na Casa do Passagem, banho, retirada de documentos, contato com familiares”, conta a coordenadora.
A equipe busca suprir necessidades básicas e também dar acesso à saúde pública, levando as mulheres para realização de exames, como o preventivo, ou consultas no setor de Saúde Mental. As mulheres que estão em situação de rua em Irati são de outros municípios. “Outros municípios que vem pra cá. Talvez pelo fato da Casa de Passagem que também Irati é uma das poucas cidades da região que possui a Casa de Passagem. Talvez, por conta disso, que elas vêm. Muitas vezes oferecemos, mas elas não aceitam. Elas somente aceitam ir até a Saúde da Mulher ou a questão da documentação, mas não aceitam ficar na Casa de Passagem”, relata Saionara.
O atendimento do Serviço de Abordagem Social em relação às denúncias de violência doméstica ocorre após às 17 horas, em regime de plantão. Durante o dia, o Serviço de Abordagem Social também recebe ligações, mas encaminha o denunciante para outros serviços que realizam o atendimento durante o dia como o Creas e a Patrulha Maria da Penha. O telefone do Serviço de Abordagem Social e da Casa de Apoio é (42) 9-9117-5939.